Mostrando postagens com marcador alteridade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador alteridade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A diversidade na união

publicado originalmente no
Observatório da Imprensa 23/11/2010 

Por Elenita Malta Pereira e Marcelo Degrazia






      Em 12 de novembro, a Folha de S.Paulo publicou, em sua seção "Tendências/Debates", artigo da professora de direito Janaína Conceição Paschoal, intitulado "Em defesa de Mayara", a estudante de Direito que recomendou a quem quisesse fazer um favor a São Paulo afogar um nordestino por dia. A respeito da afirmação extremamente preconceituosa – como se fosse possível alguma defesa – a professora argumenta que a culpa não foi de Mayara, e sim de Lula, que promoveria uma política separatista no Brasil. Declarações do presidente, ao dividir o país em "pobres" e "ricos", motivariam manifestações como as da estudante paulista.
      O artigo de Janaína afirma também que Serra teria sido rejeitado por ser paulista, o que, além de não se constituir em argumento comprovável, falha na medida em que o tucano foi recusado pela maioria dos eleitores, e não apenas por nordestinos. Considerando apenas a economia e os índices de desenvolvimento humano, o Nordeste, historicamente, foi visto como a região mais atrasada do país, vitimada pela seca; isso é verdade, mas sobretudo por oligarquias de "coronéis" que monopolizavam terras, capitais, mídias, votos, poder. Esse modelo de (sub)desenvolvimento gerou concentração de riqueza, de um lado, e profundas mazelas sociais de outro. Os recursos federais aí investidos em políticas assistencialistas por governos passados foram, em boa parte, sistematicamente desviados por esquemas de corrupção que favoreciam "donos de poder" locais e novas forças políticas eventualmente emergidas. A região evoluiu bastante, não resta dúvida, mas ainda apresenta grandes carências sociais e distorções econômicas. Num contexto como esse, qualquer governo que oferecesse benefícios concretos e de maneira direta acabaria recolhendo duras críticas por parte das elites mais atrasadas, juntamente com os votos do povo desassistido.
      Se houve rejeição, foi ao que o candidato tucano representava enquanto ameaça a esse aspecto da distribuição da renda nacional, e não ao fato de ser paulista. Houve, sim, uma nítida escolha: continuar o projeto iniciado em 2003. As urnas, quando ouvidas, falaram na linguagem dos eleitores a mesma linguagem sem sotaques das palavras-votos, de Norte a Sul do Brasil.


      A política separatista

      A professora, num trecho de seu artigo na Folha, se refere ao ataque de Mayara contra os nordestinos como sendo o resultado de uma suposta política separatista incentivada por Brasília. Somos assim tão cegos, a ponto de não vermos que um dos objetivos do atual governo era o de desmembrar o Brasil? Lula conseguiria somente com a força de sua política social e com o metralhar dos votos, o que Sabinadas, Cabanagens e Farroupilhas apenas sonharam com a força de seus fuzis? Não foi o governo Lula quem criou os distanciamentos sugeridos pela professora. Foram as próprias realidades brasileiras, estabelecidas por processos históricos de exclusão social, que geraram as situações apontadas pelo presidente ao longo de seu governo.


Antropofagia (1929), de Tarsila do Amaral,
assimilação interativa do/com outro

      Contra as desigualdades, entre acertos e erros, foram continuadas, aprofundadas e desenvolvidas diversas políticas sociais, na tentativa de, se não eliminá-las, ao menos reduzi-las. Tais políticas, muitas vezes taxadas de assistencialistas, representam o mínimo necessário para aplacar as enormes carências das populações e as grandes diferenças econômicas entre as regiões do país. Se compararmos tais políticas com os programas sociais de muitas nações europeias, verificaremos nosso atraso em termos de amparo aos menos favorecidos. Já a própria Constituição de 1988, em seus princípios fundamentais, reconheceu as profundas diferenças muito antes de serem apontadas pelo Presidente, tanto que anota como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, no Art. 3º, inciso III: "Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais" (grifo nosso). O assistencialismo apoia-se, entre outros conceitos, na noção de que não dá para esperar o bolo crescer e só então reparti-lo, como queria Delfim Neto no regime civil-militar.


      O país da diversidade

      Quanto à unidade brasileira, a professora afirma que o Brasil sempre foi "um exemplo de união", a começar pela língua, falada por todos, apesar das dimensões continentais do país. No entanto, muitos de nós não conseguem ver que a grande contribuição do Brasil para a humanidade é justamente o seu multiculturalismo, expresso na sua diversidade étnica, religiosa, linguística, folclórica, artística, que expressam, por sua vez, matrizes culturais muito diversas. É impossível reduzir a nação às suas características regionais, ainda que reunidos seus aspectos mais representativos. Por isso, toda tentativa de agrupar os elementos afirmativos dessa impossível imagem nacional sempre têm falhado, quando não repetem estereótipos vazios e limitadores que dizem mais de uns do que de outros.


Operários (1933), de Tarsila do Amaral, flagrante de
diversidade na união


      Qualquer tentativa de fixar essa riqueza de matizes numa imagem será sempre tarefa vã e empobrecedora. Não é derrotismo, é aceitação do outro, do vário, do múltiplo. Porque o que essas definições têm em comum, tirando o aspecto reducionista, é a produção de símbolos "à nossa imagem e semelhança", mas de apenas alguns e em certos locais de privilégios. Mestiços, somos vários e multifários, irredutíveis às unidades fundamentais e instrumentais da nacionalidade, como a língua, a moeda, o território, a ordem jurídica, o governo, os símbolos nacionais. Nesse contexto (de diversidade na união), as nossas agudas diferenças, manifestadas nas violências urbana e rural, são provocadas, sobretudo, pelas desigualdades econômicas, políticas e sociais.

      E quanto à Mayara, não vimos em que a professora, que também é advogada, apoiaria a eventual defesa (mencionada no título do artigo) de sua possível cliente porque não há nenhum nexo causal entre a infeliz manifestação da estudante e uma suposta política separatista do governo Lula – argumentos aqui contestados – para justificar o seu ataque raivoso contra nós, 190 milhões de nordestinos de todos os quadrantes. Ao tentar defender o indefensável, a professora apela para a lógica da inversão e acaba culpando as próprias vítimas – no caso, a população nordestina – pelos problemas do país. Nossa conclusão é que Janaína Conceição Paschoal aproveitou o caso Mayara para, em seu artigo na Folha, além de requentar o indigesto Prato Frio (PF) da não memorável campanha eleitoral, passar o seu lamento pela derrota do candidato tucano.


Elenita Malta Pereira é Historiadora
Marcelo Degrazia é escritor
Leia Mais ►

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O Olho

fragmento do romance 
O Deserto das Ilusões




     

      Ao cruzar o galpão de uma fazenda onde o pai contador, em visita a um dos grandes exploradores da re-gião, foi colher os números do arroz e da pecuária, Isaías viu-se diante de uma cabeça de ovelha num varal. Pendurada no gancho, ela o olhava fixamente como se indagasse, ou mais, como se o acusasse por sua atual condição. Parecia haver nesse olhar já embaciado uma espécie de dolorosa resignação, como se ele, o animal, lamentasse tarde demais a confiança depositada em seus cuidadores. Enxameada de moscas, ainda gotejava demorados e grossos pingos de sangue. No chão se formara uma pequena poça, onde em seguida chegou um cão ovelheiro para beber.
      Isaías desviou o olhar, mas acabou dirigindo-o para o pequeno monte de lãs próximo à saída do galpão. O comum era o pelego da ovelha sacrificada ficar ao sol, coreando, mas por um motivo qualquer ela tinha sido tosquiada antes. O pai, o avô, um peão, às vezes lhe contavam histórias ou comentavam algum fato estranho ao andar por perto. Agora, quando procurava fugir ao olhar fixo do animal, as narrativas se enredavam na memória. A lã, tramada nos teares, recebia tintas e depois era transformada em blusões, ponchos e cobertores pesados. Num tempo lá atrás, em outros campos ou vales, pequenos rolos de fios como esses viravam pavios de antigas lamparinas, e embebidos na gordura do próprio animal formavam velas para iluminar a noite das famílias, talvez cavernas profundas onde pudessem também se esconder os monstros. Ah, o assadinho de cordeiro... Nunca podia faltar em dia de festa, e durante a semana era preparado na forma de costeletas com arroz, ou cozinhado com massa.
      Olhou mais uma vez a cabeça. O que tinha diante de si era apenas uma etapa desse processo. Ele, assim como os outros, passado o primeiro susto da infância diante do sacrifício de uma rês, também já se acostumara a ver essas partes como produtos. Se alguém se mostrasse horrorizado com o desespero do animal na hora bárbara e solene, não faltava quem dissesse: isso é a vida, uns morrem para outros viverem, é a lei mais certa da natureza.
      Na primeira vez, e agora, quando olhava fixamente o olho já sem brilho do animal, pensou que isso não estava certo. Tinha aí no mínimo um grande equívoco, não era correto toda essa criação para o abatimento em massa, sem outro critério que não fosse a permanência da espécie. Deus, e o homem em seu lugar, deviam buscar um novo caminho para a sobrevivência. O que queriam provar? Qual a necessidade de tamanho sacrifício? O homem, para encher o bucho e os bolsos; e para abrigar-se do inverno não precisaria matar. Mas Deus, qual a sua necessidade, o que precisava provar com o inesgotável morticínio em sua perene marcha, que não pudesse ser melhor demonstrado pelo amor, a generosidade, o perdão? Que eram capazes de criar, isso já estava suficientemente comprovado, em especial através da beleza e de todo êxtase por ela provocado. Então qual a precisão do extermínio? Não conseguiam se colocar no lugar do outro, seria só isso? Era assim tão contundente o fio da própria faca, para não a experimentarem na própria carne? Não veriam isso?
      O cão ovelheiro, sorvida a poça de sangue até o fim, deixou o galpão num passo indiferente e rumou para os campos.
      No outro varal - as costelas arfando em silêncio - repousava o corpo esquartejado. Num impulso, Isaías pediu ao capataz a faca emprestada, era para extrair um dos olhos da cabeça. Não tinha muito claro o que procurava, quando começou a fustigar por atrás do olho embaciado. Depois de alguma luta, cuidando sempre para não machucar o órgão do animal - não sabia que ele era fixado tão firmemente ao fundo da cova -, afinal o extraiu. Em seguida, amparava na palma da mão uma rara bolita, como nunca tivera, como nunca imaginara outra igual na infância.
      Ainda seguindo o mesmo impulso, cortou o olho na transversal. Escorreu em suas mãos um líquido puríssimo jamais visto nem tocado por ele, um fluido sequer intuído, mais brilhante do que a vaselina e mais fresco e transparente do que a água mais cristalina. Não podia imaginar que houvesse no mundo tamanha pureza! Era uma não-matéria, a transparência que deixava ver e até mesmo aclarava ainda mais o outro lado, sua palma da mão mais viva e aberta. Nela, vertia um coágulo de tempo - a concentração da metafísica!, pensava só agora ao relembrar -, todo o fruir da existência animal em sua pele, a escorrer por seus dedos. Depois da sutil massa incolor, que tinha um cheiro de peixe que ficou impregnado nas mãos durante dias, vinha um círculo oval acinzentado, claro e consistente: a pupila, colada contra a córnea no centro da íris...
      Teve novo impulso. Juntou o seu ao olho do animal, e viu que o outro também captava o mundo de cabeça para baixo, um mundo invertido, que só mesmo a severa lei da retina corrigia. Ao apertar tal globo, o pequeno globo oblongo dentro do líquido vítreo, o invólucro se partiu, e do seu interior irrompeu uma nova massa brilhante, agora mais espessa, com minúsculos pontos coloridos, de tal modo que ele tinha na palma da mão, em miniatura, uma espécie de arco-íris aos fragmentos. Seria o filtro das cores? Era um gel quase translúcido, semelhante às pomadas homeopáticas, que se desfazia com a pressão renovada dos dedos. Até que perdeu por completo a forma original e se transformou numa massa pastosa - todo o mistério do olhar animal agora desfeito em suas mãos.
      Olhou outra vez a cabeça da ovelha. Que prodígio! Como podia essa matéria ter sido criada e ficado esse tempo todo escondida do mundo? Quantos como ele, fosse pelo trabalho, pela educação ou até mesmo pelo acaso, como lhe parecia o seu próprio instante, tinham alcançado o fundo do olho do animal, essa cova, essa caverna milenar onde Deus parecia teimar em se esconder, lançando apenas sombras sobre tudo em volta?...
      Estava nisso, quando ouviu a voz do capataz às suas costas, num tom divertido e aflautado:
      - Isso aí assado na brasa... Hum!... É uma iguaria!
Leia Mais ►