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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Um escritor na periferia do mundo

Discurso já histórico de Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro de Frankfurt de 2013.O país homenageado é o Brasil, personagem apresentado numa voz crítica e comprometida

Discurso agradou colegas nacionais e estrangeiros.

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro –é a alteridade que nos confere o sentido de existir–, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones.

Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania –moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade–, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios –o semelhante torna-se o inimigo. 
A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados. 

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade. 

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais –ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples. 

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo –amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro –seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual– como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.”


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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Vivemos numa Grande Província


Quem é quem na nação?
      Se dizemos que o Brasil, para a contagem da idade das civilizações, nasceu ontem, então devemos concluir que deixamos o campo há poucas horas, talvez minutos.
      Diante dessas crianças, sempre nos vem à mente a palavra mais cara (ao menos para os governos): educação. Aí também nos infernizam os lugares comuns: a educação vem de casa, é transmitida com o leite materno. Não por outra razão, ainda ouvimos dizer ou lemos (com frequência bem menor, é verdade), que a família é a cellula mater da sociedade. Em miúdos: o adulto, segundo alguns psicólogos, carrega vida afora o seu berço da infância, em especial quando os obstáculos do mundo provocam seus sentimentos mais atávicos. Ainda que sejamos menos deterministas (o que parece ser cada vez mais contra-corrente), ou totalmente liberais (a corrente cada vez mais aberta, fechada...), seja qual for o nosso centro ou nosso extremo, ainda assim concordamos com mais um lugar comum: a criança é o pai do homem.
      Superado o parágrafo dos lugares-comuns (pois esse não é o nosso assunto), ao olharmos as obras desse jovem mancebo tecno-eletrônico, somos obrigados a concordar que, por vias aéreas, ou seja: a razão, o portuga-americano evoluiu bastante, dentro das lições industriais e financeiras do mundo ocidental. Na infra-estrutura, com grande rapidez ao longo dos últimos 80 anos, os progressos dos filhos dessa mãe gentil (descontados os gargalos das cidades, das estradas, dos aeroportos, etc., afinal uma maneira de comprovar, pelo viés dos otimistas, o sucesso desenvolvimentista do modelo econômico), são visíveis a olho nu e respiráveis a narinas carbônicas. Deixemos os outros sentidos em paz! Bem, já que não conseguimos superar os lugares-comuns, concluamos este parágrafo com mais um: o colono adulto implementou e desenvolve muito bem a cartilha do chamado (pelos inimigos do modelo, claro!) capitalismo selvagem.
      Mas se o desenvolvimento material e econômico da nação foi notável nesses anos todos (só para lembrar: algumas estatísticas tradicionais, baseadas em índices financeiros e econômicos, apontavam o Brasil do século passado como o país que mais se desenvolveu no mundo), se nesse campo, ops!, se nesse meio urbano e adjacências o desenvolvimento do país foi notável, no outro terreno das vias aéreas, ou no outro hemisfério do cérebro, onde se situa a mentalidade do ser humano (criando aqui uma original separação entre mente e razão!), nessa área, devemos concordar, o Brasil tem avançado a passo de cágado. O responsável, como devem ter percebido os alunos mais espertos da turma, é esse adulto que, ainda hoje, no finalzinho da manhã ou no início da tarde, deixou o campo e migrou para a cidade.
      Mas afinal quem é esse adulto? O que pensa ele? Podemos dizer que ainda é uma criançola?
Elite migratória predadora
   Estamos falando dos filhos, netos e, em alguns casos, já dos bisnetos dos homens e mulheres que comandavam e sofriam aquele antigo Brasil. Esses avós, juntamente com os pais fundadores da nação (portanto avós desses e bisavós e tetravós daqueles), foram os criadores, trabalhadores e vítimas de uma sociedade estamental, escravagista e predatória, que por séculos explorou sem dó nem piedade os potenciais naturais e humanos do grande e vasto território. Exterminaram índios a bala (hoje botam fogo nos que sobraram, deve ser porque é mais barato!), ferraram e montaram negros escravos como se fossem bestas de carga, constituíram-se em coronéis da terra para controlar a mão-de-obra e o voto, tudo na velha tradição patriarcal e bastante cristã, alicerçada no mandonismo de quem pode e no obedecismo de quem precisa. (Não confundir com obedeceísmo, que é o movimento de apoio de certas categorias em torno do poder.) E para que ninguém sinta falta dos lugares-comuns: era o governo elitista de oligarquias autoritárias.
      Isso até hoje de manhã.
      Se o nosso silogismo está correto... Recapitulando: aplicamos os conceitos da psicologia do indivíduo na constituição e desenvolvimento da nação (método bastante novo e original!) e obtivemos como resultado a mentalidade quatrocentona de uma civilização exploratória do homem pelo homem. Não vamos dizer que o homem é o lobo do homem, para evitar mais um lugar-comum e em respeito aos lobos, e sobretudo às mulheres, afinal elas hoje também estão no comando dessa cultura canibalesca à nossa volta.
Os Empalhaços produzidos pela política do país
      Bingo!: podemos então afirmar, sem sombra de dúvida, que o Brasil ainda é um país interiorano, na pior acepção da palavra (essa modulação criminal é de suma importância!), em sua formação e estruturação psicológica. Ou seja, a sombra agrária e estamental ainda está presente na mentalidade nossa e de nossos dirigentes, ou, o substrato mental, o espírito primitivo da nação (como já perceberam os melhores alunos da classe), de certa forma (mas de uma forma dialética, portanto) é a grande força que ainda preside a nossa realidade política, econômica, social, etc; ou numa só palavra: cultural.
      A conclusão do silogismo só pode ser uma (não, não falarei em revolução nem em banho de sangue): vivemos numa Grande Província!




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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Questão de Mérito

fragmento de Diário de um fracassado,
que integra o romance Pedro em queda



A Guerra de Gigantes que faz tremer a terrar 




      Embora tudo vá se acabar numa quarta-feira de cinzas, nunca é tarde para pensarmos no dia de amanhã. E pensar que os mamutes são descendentes, segundo tudo indica, de um animal que regulava em tamanho com uma anta!, o Moeritherium.



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      Os meriterióides constituem uma subordem de proboscídeos do Terciário inferior.

      Segundo um ministro brasileiro, a nossa subordem (um eufemismo para sub-raça) periga empurrar o país para o Quartenário inferior. Ainda segundo o ministro, para escaparmos do Terciário, precisaríamos alimentar nossos meriterióides à base de saracuras. 
      O problema é que, nas ordens do governo, esse recado tem sido historicamente mal interpretado, tendo-se distribuído, às antas, sinecuras como nunca visto. 
      Nossas antas andam gordas paca, e não há jeito de o Brasil ascender ao Primário superior.
      Talvez o ministro não soubesse, mas quem nasce para anta, nunca chega a meritério.



                                                              Anta inofensiva


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     Não é coisa fácil avaliar a probiscidade de uma estratégia.
     A Inglaterra, por exemplo, viu no Brasil, na Argentina e no Uruguai, aliados legítimos para sufocar a nascente República Guarani. O Mammuthus imperialis achou de bom alvitre retalhar o meritério americano, para a garantia de seu mercado externo. É a tese a ser derrubada feito um patinho de parque de diversões.
     


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     O mamute foi um dia meritério. Para chegar a tanto, enquadrou-se na linha de aumento de porte, que constituiu uma tendência evolutiva importante entre os elefantes fósseis. Mas antes de conquistar esse garbo todo, supõe-se que foi um organismo adaptada à vida anfíbia, habitando as zonas úmidas ou pantanosas nas margens dos rios.
     Enquanto esteve na margem, o meritério, sem dúvida, sonhou com o seu futuro de mamute.
     Mas e o mamute, por que esquece tão rapidamente o seu passado meritério? Não haverá nele suficiente probiscídeo?



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     Meritério, o país do futuro!



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     Nosso futuro, afinal, está nos mamutes ou nas pacas?


                                                                  Feliz Paca


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      Mamute: ame-o, ou deixe-o!


                                                         Isto não é um mamute


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Consolo de paca: toda paca tem o seu dia de anta.



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O Ibama adverte: as espécies acima não se encontram na natureza.



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                              Identifique, na figura acima, de que espécie o texto tratou.








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