Mostrando postagens com marcador memória. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador memória. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

E se o Grande Irmão controlar a internet?



Estados e empresas já testam sistemas que permitem ocultar ou eliminar, maciçamente, conteúdos digitais. Para evitar futuro orwelliano, é preciso agir agora.

Por Peter Van Buren | Tradução Cauê Seignemartin Ameni 

Fonte: Outras Palavras

 
Após alimentar sonhos de uma comunicação radicalmente livre, a internet poderia converter-se no exato oposto? A digitalização, que hoje acelera a circulação de informações em todos os formatos e linguagens, não facilitaria, também, a eliminação de informações e opiniões que já não têm existência material — porque foram reduzidas a impulsos eletrônicos? Nos últimos dias, fatos novos reforçaram a urgência de considerar estas ameaças com seriedade e de encontrar meios para afastá-las.

Nos Estados Unidos, depois de analisar a fundo o sistema de coleta maciça de informações sobre as chamadas telefônicas dos cidadãos, mantido pela Agência Nacional de Segurança (NSA) um juiz considerou-o, em 14 de dezembro, “quase orwelliano”. Três dias depois, um grupo de consultores formado pelo presidente Barack Obama para analisar este mesmo mecanismo recomendou uma série de mudanças. Propôs, em especial, retirar os poderes que pequenos grupos de assessores militares têm hoje para ordenar a vigilância direta sobre o conteúdo das comunicações mantidas por certas pessoas, a partir da identificação de seus interlocutores frequentes. Não há, no entanto, qualquer garantia de que as recomendações sejam adotadas.

Ao contrário: analistas de assuntos de segurança, ouvidos pelo “New York Times”, disseram “duvidar” que Obama tenha “coragem” para enfrentar a vasta rede de agências de espionagem formada após 11 de setembro de 2001 e a assinatura da “Lei Patriótica“. Um assessor da Casa Branca afirmou que o presidente analisará as propostas em suas férias de fim de ano no Havaí, mas que já descarta uma delas: precisamente a que desmantelaria certas articulações entre tais agências, para limitar seu poder.

Até onde pode ir este controle sobre a comunicação? No texto a seguir, Peter Van Buren, um diplomata norte-americano ainda na ativa, chama atenção para um de seus aspectos mais aterrorizantes. Num mundo em que as informações estão sendo digitalizadas em enorme velocidade e em que os suportes físicos estão desaparecendo, pode tornar-se fácil demais “apagar” informação incômoda. Não se trata apenas de hipótese. Van Buren, que escreve em publicações como The Nation, Huffington Poste Mother Jones, apresenta os sistemas que já são utilizados (embora em pequena escala), por governos e empresas para restringir o acesso dos cidadãos a certos conteúdos. No momento, prossegue ele, isso é feito com pretextos consensuais: por exemplo, restringir o acesso a sites que estimulam a pedofilia e o abuso de crianças. Mas, em novos cenários políticos, as mesmas técnicas de invisibilização não poderiam ser utilizadas contra ideias dissidentes? Não estamos arriscados a materializar o “buraco de memória” previsto por George Orwell em “1984″?

O alerta de Van Buren não precisa ser tomado como uma sentença. Assumir a ameaça como algo inevitável seria, aliás, um convite ao conformismo. Mas na agenda de temas sobre os quais é preciso agir para construir um planeta habitável no futuro, parece cada vez mais necessário destacar a disputa pela liberdade na internet. Talvez o que esteja em jogo, nesta batalha, seja a própria possibilidade de democracia e liberdade de expressão. (Antônio Martins)


Leia a matéria:

E se fizessem Edward Snowden desaparecer? Não, não estou sugerindo alguma iniciativa “inovadora” da CIA, ou uma teoria conspiratória ao estilo de “quem matou Snowden?”, mas algo ainda mais tenebroso.

E se simplesmente fosse possível fazer desaparecer tudo o que alguém denunciou? E pudessem ser eliminados, em tempo real, todos os documento da Agência de Segurança Nacional (NSA) revelados pelo ex-agente Snowden — cada entrevista que ele concedeu, cada indício documentado sobre um Estado de segurança nacional que fugiu de qualquer controle? E se a publicação de tais revelações pudesse ser reduzida a um esforço estéril, como se os fatos não existissem mais?

Estou sugerindo o enredo para o romance de algum George Orwell do século 21? Dificilmente. À medida que caminhamos para um mundo totalmente digitalizado, coisas semelhantes poderiam ser possíveis em breve, não na ficção cientifica, mas no nosso mundo real, apenas pressionando um botão. Na verdade, os primeiros protótipos de uma nova técnica de ocultameno radical já estão sendo testados. Estamos mais perto de uma distópica realidade aterradora, que poderia ter sido o tema de romances futuristas imaginários. Bem-vindo ao buraco da memória.

Mesmo se um futuro governo cruzar novas linhas vermelhas e simplesmente assassinar os vazadores de informações sigilosas, outros sempre emergirão. Mas em 1948, em sua assustadora 1984, no entanto, Orwell sugeriu uma solução mais diabólica para o problema. Evocou um artificio tecnológico para o mundo do Grande Irmão (Big Brother) que chamou de buraco da memoria. Em seu futuro sombrio, exércitos de burocratas, trabalhando ironicamente no Ministério da Verdade, passavam suas vidas apagando ou alterando documentos, jornais e livros, a fim de criar uma versão aceitável da história. Quando alguém caía em desgraça, o Ministério da Verdade o excluía, e toda documentação relacionada com sua vida, ia para o buraco da memoria. Cada artigo ou noticia que mencionava ou registrava de alguma maneira sua vida era modificado para erradicar todo o indicio de sua existência.

No mundo pré-digital de Orwell, o buraco da memoria era um tubo de vácuo no qual velhos documentos eram fisicamente destruídos para sempre. As alterações de documentos existentes e a eliminação de outros asseguravam que nem mesmo as repentinas alterações de alianças e inimigos globais estabilidade representassem problema para os guardiões do Grande Irmão. Neste mundo imaginado, graças aos exércitos de burocratas, o presente era o que sempre havia sido e os documentos alterados comprovavam este fato, sem o risco de que memórias titubeantes pudessem argumentar em contrário. Qualquer pessoa que expressasse dúvidas sobre a verdade do presente seria marginalizada ou eliminada, sob acusação de “crime de consciência”.

Censura digital, governamental e corporativa


A maioria de nós acessa notícias, livros, músicas, filmes e outras formas de comunicação por meios cada vez mais eletrônicos. O Google já tem mais receita publicitária que o conjunto de todos os meios impressos dos EUA. Mesmo a venerávelNewsweek não publica mais uma edição em papel. E nesse mundo digital esta se explorando a possibilidade de um certo tipo de simplificação. Os chineses e iranianos entre outros, por exemplo, já implementaram estrategias de filtragem na web para bloquear o acesso a sites e material que não são aprovados pelos governos. Do mesmo modo (embora sem sucesso), o governo dos EUA bloqueia o acesso de seus funcionários ao Wikileaks e ao material divulgado por Edward Snowden, ainda que a censura não prevaleça em suas casas. Ainda não.

A Grã-Bretanha, no entanto, dará em breve um passo significativo, no que diz respeito ao que o cidadão pode ver na web, inclusive quando está em sua casa. Antes do fim do ano, quase todos os usuários de internet serão incluídos num sistema destinado a filtrar a pornografia. Por padrão, os controles também bloquearão o acesso a material violento, conteúdo relacionado a extremistas e terroristas, sites relacionados a anorexia, distúrbios alimentares e suicídios, assim como sites que mencionem álcool e tabagismo. O filtro também bloqueará material esotérico, embora grupos ativistas baseados no Reino Unidos exijam explicações.

E as formas de censura na internet patrocinadas pelos governos estão sendo privatizadas. Novos produtos comerciais, de fácil aplicação, garantem que uma organização não precise ser a NSA para bloquear conteúdos. Por exemplo, a Blue Coat é uma empresa-líder em “segurança” na internet é uma importante exportadora de tais tecnologias. Pode estabelecer facilmente um sistema para monitorar e filtrar todo o uso da internet, bloqueando sites por seu endereço www, por palavras-chaves ou mesmo por seu conteúdo. O software da Blue Coat é empregado, entre outros, pelo exército dos EUA, para controlar o que seus soldados veem quando deslocados ao exterior; e pelos governos repressivos da Síria, Arábia Saudita e Myanmar para bloquear ideia políticas do exterior.

Busca no Google…

Em certo sentido, o buscador do Google também poderia fazer desaparecer material. No momento, é simpático aos denunciantes. Uma rápida busca (0,22 segundos) produz mais de 48 milhões de hits sobre Edward Snowden, que se referem em sua maioria aos documentos filtrados da NSA. Alguns dos sites apresentam os próprios textos, etiquetados como Top Secret. Há menos de meio ano, somente membros de um grupo muito limitado no governo, ou conectado contratualmente com ele, poderiam ver coisas semelhantes. Agora, estão disponíveis em toda a web.

Buscador numero um na internet, o Google parece uma máquina para difundir maciçamente — e não suprimir — noticias. Coloque qualquer informação na web e é provável que o Google encontre-a rapidamente, agregando-a aos resultados de sua busca no mundo inteiro, às vezes em segundos. Mas como poucas pessoas pesquisam além dos primeiros resultados, o simples fato de estar presente ou oculto entre estes tem enorme significado. Já não basta fazer com que o Google note o que você produz. O que importa agora é conseguir que coloque o material suficientemente acima, na pagina de resultado das buscas. Se o seu site é o numero 47.999.999, numa pesquisa sobre Snowden, você pode dar-se por morto, praticamente desapareceu. Pense nisso como ponto de partida para as formas mais significativas de desaparecimento, que podem nos aguardar no futuro.

Ocultar algo aos usuários, reprogramando as maquinas de busca, é outro passo sombrio no futuro. Mais um é a eliminação efetiva de conteúdos, um processo que exigiria reprogramar os computadores que realizam a pesquisa. E se o Google se negar a implantar esta possível mudança em direção a buscas destrutivas, a NSA — que parece já ser capaz de projetar seus tentáculos dentro do buscador — poderia implantar sua própria versão de um código maligno, como já fez em pelo menos 50 mil casos.

Mas não se preocupe apenas com o futuro: uma estratégia de busca negativa já funciona, mesmo que seu objetivo atual, agir contra os pedófilos, seja fácil de aceitar. O Google introduziu recententemente um software que dificulta a busca de material relacionado a abuso infantil. Como disse o chefe da empresa, Eric Schmidt, o buscador foi programado para limpar mais de 100 mil palavras-chaves usadas por pedófilos para buscar pornografia infantil. Agora, por exemplo, quando os usuários fizerem pesquisas que possam estar relacionadas com abuso sexual, não encontrarão resultados que levem a conteúdo ilegal. Em seu lugar, o Google orienta para sites de ajuda e conselhos. Em breve presenciaremos essas mudanças em mais de 150 idiomas, de modo que o impacto seja verdadeiramente global, escreveu Schmidt.

Enquanto o Google reorienta as buscas de pornografia infantil para sites de aconselhamento, a NSA desenvolveu uma capacidade parecida. A agência controla um conjunto de servidores com o codinome Quantum, que se encontram na rede central da internet. Sua tarefa é reorientar objetivos, afastando-os dos destinos solicitados e redirecionando-os para sites preferidos pela agência. A ideia é: você digita o endereço de um site e é conduzido a outro, menos odiado pela agencia. Embora atualmente essa tecnologia seja usada para enviar potenciais jihadistas online a materiais islâmicos mais moderados, no futuro poderá ser empregada, por exemplo, para reorientar as pessoas que procuram noticias de site como a Al-Jazeera a outra agência, que se ajuste à versão dos fatos construída pelo governo.

… e destrói!

No entanto, as tecnologias de bloqueio e reorientação, que provavelmente serão mais sofisticadas no futuro, não constituem a maior ameaça. O Google já prepara o passo seguinte, a serviço de uma causa que quase todos aplaudirão. Está implementando tecnologia capaz de identificar imagens fotográficas de abuso infantil cada vez que aparecem em seu sistema, assim como tecnologia de comprovação capaz de verificar e eliminar vídeo ilegais. As ações da empresa para combater a pornografia infantil podem ser muito bem intencionadas, mas a tecnologia que esta sendo desenvolvida para tanto deveria nos aterrar a todos. Imagine se, em 1971, os Papéis do Pentágono, o primeiro documento sobre as mentiras da guerra do Vietnã a que a maioria dos norte-americanos teve acesso, houvessem sido eliminados. Se a Casa Branca de Nixon tivesse desaparecido com esses documentos, a história não teria seguido um caminho diferente, muito mais sombrio?

Ou considere um exemplo que já é realidade. Em 2009, muitos donos de leitores de livros digitais Kindle descobriram que a Amazon havia colocado suas mãos em seus aparelhos durante a noite e eliminado remotamente as copias de Revolução do Bichos e 1984 de Orwell (não é uma ironia). A empresa explicou que os livros, publicados por erro em suas maquinas, eram na realidade, copias dos romances vendidas ilegalmente. Da mesma maneira em 2012, Amazon apagou o conteúdo do Kindle de um cliente sem advertência prévia, afirmando que sua conta estava relacionada com outra conta que havia sido previamente encerrada por ir contra as políticas da empresa. Usando a mesma tecnologia, a Amazon tem agora a capacidade de atualizar livros em seu aparelho, com o conteúdo alterado. Depende da empresa informar os usuários a respeito ou não.

Além do Kindle, o controle remoto sobre outros aparelhos já é uma realidade. Grande parte dos softwares de nossos computadores comunica-se, em segundo plano, com servidores da empresa produtora, sendo sujeitos a atualizações automáticas que podem alterar seu conteúdo. A NSA utiliza malware, software maligno implantando remotamente em um computador, para alterar o modo de funcionamento da máquina. O código do vírus Stuxnet, que provavelmente danificou mil centrifugas usadas pelos iranianos para enriquer urânio, é um exemplo de como pode operar algo parecido.

Atualmente, cada iPhone já checa, com a sede central [da Apple], que aplicativos foram comprados; e sobre que links você clica rotineiramente, A Apple preserva-se o direito de desaparecer com qualquer aplicativo, por qualquer motivo. Em 2004, TiVo processou a Dish Network por entregar a seus clientes set-top boxes [equipamento para conectar televisões], que segundo a TiVo infringiam suas patentes de software. Apesar do caso ter sido solucionado em troca de uma grande indenização, como remédio inicial, o juiz ordenou a Dish que desativasse eletronicamente todos os 192 mil aparatos que havia instalado nas casas dos clientes. No futuro, pode haver cada vez mais meios para invadir e controlar computadores, alterar e fazer desaparecer o que está sendo lido, enviar os internautas a sites que não buscavam.

As revelações de Snowden, sobre o que faz a NSA para reunir informação e controlar a tecnologia, fascinaram o planeta desde junho, mas são apenas parte da equação. Como o governo ampliará seus poderes de vigilância e controle no futuro é uma história que ainda não foi contada. Imagine instrumentos para ocultar, alterar ou eliminar conteúdos com campanhas difamatórias para desacreditar ou dissuadir denunciantes. O poder que está potencialmente à disposição dos governos e corporações tornou-se mais evidente.

A possibilidade de ir além de alterar conteúdos, e modificar a maneira como as pessoas atuam também se encontra, obviamente, nas agendas governamentais e corporativas. A NSA já reuniu dados para chantagem espionando o acesso de muçulmanos radicais a pornografia digital. Também interceptou eletronicamente um congressista norte-americano sem possuir um mandato judicial. A capacidade de reunir informações sobre juizes federais, dirigentes do governo e candidatos presidenciais fazem com que os esquemas de chantagem de J. Edgar Hoover, no FBI da década de 50, parecerem tão pitorescos quando as meias soquete e saias poodle da sépoca. As maravilhas da Internet nos maravilham todos os dias. As possibilidades distópicas orwellianas da rede não tinha, até recentemente, chamado a nossa atenção da mesma forma. Elas deveriam.

Leia isso agora, antes que seja apagado

O possível futuro que espera os futuros vazadores de informação dos serviços de inteligência é aterrorizante. Agora, quase tudo é digital. Se grande parte do tráfico da internet mundial flui através dos Estados Unidos ou países aliados (ou da infra-estrutura de companhias norte-americanas no exterior); se máquinas de busca podem encontrar em questão de frações de segundos qualquer coisa; se, nos EUA, a Lei Patriótica e as decisões secretas do Tribunal de Supervisão da Inteligência Externaconvertem o Google e gigantes da tecnologia em enormes instrumentos do Estado de segurança nacional; e se tecnologias sofisticadas podem bloquear, alterar e apagar material digital, apertando apenas um botão, o buraco da memoria já não é mais ficção.

Revelações vazadas terão tão pouco sentido como velhos livros empoeirados no sótão, cuja existência é ignorada. Poste o que quiser. As leis de liberdade de expressão permite que você o faça. Mas que sentido haverá, se ninguém puder ler? Seu tempo seria melhor empregado parando em alguma esquina e gritando aos transeuntes. Num futuro já fácil de imaginar, um conjunto de revelações similares às de Snowden poderá ser bloqueado ou excluído com tanta rapidez que ninguém poderá republicá-las.

Tecnologia em contínuo desenvolvimento, se viradas 180 graus, poderão eliminar maciçamente informações e opiniões. A internet é um espaço amplo, mas não infinito. Está centralizando rapidamente informações nas mãos de poucas corporações, sob o controle de poucos governos e os EUA encontram-se no centro das principais rotas de trânsito da rede.

Agora, você deveria sentir um calafrio. Estamos vendo, em tempo real, como 1984 passa de uma fantasia futurista para um manual de instruções. Se isso ocorrer, não será necessário matar um futuro Edward Snowden. Ele já estará morto.


Leia Mais ►

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Um romance por dentro


Em Os Hungareses, romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2012, Suzana Montoro, através do registro de um movimento migratório provocado por uma ruptura social violenta, aborda a memória como a arte de pertencer (a um lugar) além do trauma.

“Acho que sou feita de memória
e o passado é o meu presente.”

Capa do livro. Editora: Ofício das palavras.
“No primeiro dia iugoslavo da aldeia, ao chegar à escola levei um tapa na mão quando disse o costumeiro bom-dia, já napot. Em húngaro não, ago-ra temos que falar em servo-croata, a professora sussur-rou em meu ouvido. Olhei atônita, o que eu podia dizer se não sabia falar coisa alguma na língua sérvia? Ao mudar-se de país, muda-se de idioma, ela ficou repetindo diante de nós, uma classe petrificada e muda. Era o mesmo que voltar para trás e começar tudo de novo, seja criança seja velho, todos iguais nos primórdios do novo idioma. Tínhamos de aprender a nos expressar na nova linguagem.” (pág. 20-21)
   



     “Os Hungareses”, como toda boa literatura deve fazer, desperta nossa sensibilidade para uma condição humana tocante. E não apenas pelo exótico, tão presente no romance de Suzana Montoro, mas também pelo tanto de humanidade assombrosa das situações mostradas. Lembram o que Pablo Neruda, ao se referir à realidade latino-americana, certa vez chamou de surrealismo concreto. O poeta chileno respondia à indagação sobre o motivo de os escritores do nosso continente não terem demonstrado grande interesse por aquele movimento. Segundo Neruda, por vivermos realidades absurdas, que sob muitos aspectos desafiam e até mesmo negam a própria lógica, esse estado de coisas por si só seria o suficiente para provocar a imaginação. Os defensores do realismo mágico acrescentariam, mais tarde, que antes de atender ao racionalismo ocidental, sua literatura refletia o modo maravilhoso como grandes parcelas das populações latino-americanas percebem o mundo.
    Pois esse mesmo espanto, ao registrar a dolorosa mudança da na-cionalidade húngara de “um vilarejo incrustado nos Bálcãs, na bacia do Danúbio”, também está aqui presente. Como diz a autora na nota final do livro, as histórias são “absolutamente originais e quase inverossímeis. Mais pareciam literatura do que a vida vivida.”  Não se trata de filiar o livro a esta ou àquela corrente, mas de identificar alguns dos princípios que informam e orientam boa parte do material a ser abordado de maneira literária. Antes de ser modo ou moda literária, o que não é o caso aqui, trata-se de uma visão de mundo. 
     Com o apoio do Programa de Ação Cultural, da SEC do Estado de São Paulo, o romance é fruto de entrevistas com moradores e descendentes de húngaros, no interior desse Estado, e de viagem da autora até a Hungria para viver melhor o que contava. A ambientação de grande parte do livro no Exterior é uma característica presente na atual literatura feita no Brasil, sobretudo nos novos autores, que sinaliza a abertura dos ficcionistas brasileiros para o que ocorre fora de nossas fronteiras. A diferença marcante, que no caso de "Os Hungareses" se constitui em mérito, é que, ao contrário de grande parte de seus congêneres, sua realização correu por iniciativa e conta da autora; não foi encomenda de editor nem recebeu patrocínio para render um filme, por exemplo.
      O livro ratifica as qualidades da autora reveladas em seus títulos para crianças e jovens. Um deles, “O Menino das Chuvas”, recebeu o selo de Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infanto-juvenil, com qualidades agora mais maduras e desenvolvidas. O controle dos períodos, a extensão adequada das frases e a uniformidade do conjunto asseguram bom ritmo para uma leitura segura e agradável. O leitor entra num túnel de voz e vive uma experiência única, e por que não dizer: mágica e sedutora. 
       A magia do próprio material está bem representada no tratamento, na sensação de que a autora encontrou o tom certo, nada é forçado, e isso também colabora para a leitura fruir com naturalidade. É a expansão de um talento despontado em seu livro de contos, “Exilados”, já insidiosos, econômicos, certeiros. O vocabulário, com todas as notas exóticas que pede a história, não sobrecarrega o leitor com informações desnecessárias. E que nomes! São tão reais e convincentes, tão bem ajustados ao conjunto, que dão mesmo a impressão de se tratar de uma história ocorrida em outro país, e noutra língua.
Suzana Montoro (jornal Rascunho)
     Suzana Montoro realizou a difícil tarefa de erguer, com notas “estrangeiras”, um mundo inteiramente novo para o leitor brasileiro, mas sem o choque experimentado pela mãe de uma das narradoras do livro, que, nascida húngara, de um dia para outro, “com a mesma naturalidade com que se acorda todas as manhãs, virou iugoslava”. Pois até quando a história se passa no interior de São Paulo, ficamos com a impressão de que continuamos respirando em terra estra-nha, e essa parece uma das grandes qualidades do livro, pois abre questões bastante instigantes para quem reflete sobre a literatura a partir de sua fonte e de seu alcance. 
      O estranhamento, a permanência dele embora a mudança do local, nos dá a ideia de que uma das personagens principais, se não a principal, é a linguagem. Mas sem as rupturas superlativas do experimentalismo de vanguarda. Ela, essa linguagem peculiar, a todo instante nos lembra que estamos diante do outro. Se por um lado dificulta a empatia com as demais personagens – por seu modo de ser estranho ao nosso -, por outro nos convida a observar e logo a nos entregarmos a esse novo conhecimento.

     “Éramos todos estrangeiros na própria terra, órfãos da língua materna. Não podíamos falar o que não sabíamos e não sabíamos falar o que podíamos.” 

       A fluidez da narrativa é também alcançada pelos diálogos intercalados à voz do narrador, sem marcação, mesmo procedimento adotado em sua novela juvenil “Nem eu nem outro”, num bom aproveitamento do coloquialismo. A cada vez que abrimos fortuitamente o livro, nos deparamos com uma frase rica de detalhes, uma narração enxuta, imagens e pensamentos de muita força. A autora, deixando de fora cenas e pontuações triviais, que apenas atravancariam a leitura, selecionou o que importa. Daí vem a força e o interesse crescente, a coisa anda, e nos deixamos levar por ela. 
       A abertura dos parágrafos, com novas ações ou mudanças de local, é mais um ponto alto no domínio da técnica narrativa demonstrado pela autora em seu primeiro romance. As passagens são tão bem feitas que nem sentimos o peso da viagem; ao contrário, somos instigados de trecho em trecho a saber o que acontecerá mais adiante, sem apelo a truques nem ao uso naturalista da trama. São qualidades de boa romancista, cujos exemplo maior é a expectativa criada no leitor em relação ao reaparecimento da Tia Rózsa. O desdobramento posterior da história no Brasil seria outro bom exemplo. Acompanhamos com interesse e curiosidade para ver como as coisas ocorrerão na nossa terra.
       A abertura da história também confere aspecto memorialista ao romance, ao assumir caráter rememorativo; a experiência se completa e se confirma no final. Grosso modo, dá para dizer que as duas pontas estão fincadas no Brasil, terra da narradora principal do livro, com grande parte do entrecho nos Bálcãs, terra de origem do ethos hungarês. Isso confere ao romance uma estrutura circular, mas com desaguadouro final num mundo novo, cuja figura emblemática é a da Tia Rózsa e seu ressurgimento, a sugerir uma nova volta do parafuso. 
      Rozália, a de “suave voz de passarinho”, é a personagem condutora de grande parte da história. Através dela o material “estrangeiro” vai sendo trazido para o tratamento dado pela narradora principal, que por sua vez aporta com as experiências do sítio brasileiro. Em torno dessas duas vozes, as demais personagens vão ganhando espaço, corpo e voz. A exemplo da linguagem, temos aí também outra personagem coletiva, como se “os hungareses” fossem na verdade uma única personagem. A princípio isso pode sugerir um reducionismo abstratizante, afinal as demais personagens estão bem caracterizadas, com suficientes atributos para a caracterização de vidas particulares.
    Apoiamos essa impressão, que não diminui, ao contrário amplia a compreensão do romance, num aspecto saliente em todo ele. A exemplo de algumas narrativas de Tchékhov e sobretudo de Katherine Mansfield, a atmosfera, no caso aqui o “modo de ser húngaro”, é algo bastante presente ao longo da história – como já o fora em seus contos a predileção pela ambiência –, a ponto de podermos afirmar que os caracteres individuais, manifestados nas mais variadas peripécias e experiências pessoais, são os motivos condutores da história, mas não isoladamente. Como se o romance fosse um conjunto sinfônico (o que na verdade é), as diferentes vozes contribuem, cada qual com seu timbre, para a composição total, e assim expressam o caráter maior. 
       O todo aqui são os hungareses e suas idiossincrasias, de tal modo expostos e explorados que diríamos que, além de investigar em torno de caracteres individuais, a autora foi através desses para estudar e compreender o modo de ser de uma comunidade. Podemos dizer que o objetivo final era mesmo nos mostrar a alma coletiva de um “povo” originado nos Bálcãs, o que aliás já está dado no título. 


Mapa da Hungria, com seu nome original, de grande repercussão no romance.


      A personagem que melhor simboliza tudo isso é a da Tia Rózsa. Como convém ao tratamento de um ethos coletivo, ela tem as características de uma personagem mítica. Solta na trama, pode aparecer em qualquer lugar e a qualquer momento. Está sempre chegando e partindo, ou seja, não tem o lugar fixo próprio de individualidades enraizadas, como os demais. Em relação a estes, ela está fora do tempo, é como se Tia Rózsa fosse o tempo que escoa imperceptivelmente, com a diferença de que ela permanece como portadora das características e destinos de todos. A confirmação disso é o fato de seu nome, como podemos ver no mapa acima, estar contido no nome do país em húngaro, na forma de anagrama. Fora da história, está sobretudo no início e no fim do romance feito marco, e o seu constante partir e chegar dá bem a ideia de ciclos de vida, num eterno recomeço. É o seu caráter mágico, também presente, numa sutil e feliz coincidência com o português, no início do nome pátrio. 
"Um Passaporte Húngaro" (2002), de Sandra Kogut
(Material de divulgação do filme)
    Por outro lado, ela também simboliza o desenraizamento pró-prio de quem perdeu a nacionali-dade e mergulhou no silêncio – assunto subjacente do romance –, portadora de uma agonia impossível de compartilhar com quem não seja seu igual. Lembra a Santa Louca da infância, que alguns leitores talvez compartilhem, em especial os que viveram no interior do país, mulher sem origem e sem paradeiro, que assim como aparecia na porta de casa com uma lata de leite Ninho para pedir comida, sumia sem que soubéssemos para onde nem quando retornaria. 
    Emblemática, Tia Rózsa é a condutora desse ethos desterritorializado, sujeito sem local próprio para fixar sua raiz. Transeunte da memória, procura no mundo o estuário onde desaguar, ente universal e semelhante a todos os seres humanos. O seu modo de ser húngaro, a realização particular da potencialidade humana, só pode desaguar na única dimensão capaz de recolher e fixar sua humanidade: a linguagem. É o trabalho da caçula narradora, a fiadora da costura que, para além do tempo e do espaço social e histórico, registra a voz dos que não têm voz, sobretudo dos que perderam a voz em meio ao trânsito. Assim, elas se complementam, verso e reverso da mesma moeda, portadoras da memória da aldeia, no caso dos hungareses de lá, e do sítio, no caso dos hungareses de cá.
     Quanto às vozes narrativas, mãe e filha desempenham o papel de facilitadoras para a trans-missão da experiência, marcando aí mais um espelhamento, uma complementando a outra. A voz da mãe, em muitos trechos, lembra os narradores das novelas infantis da autora, em especial “Em Busca da Sombra”. Aliás, aqui também surge a questão da identidade relacionada à posição do outro. É possível traçar um paralelo com “A pele que habito”, de Almodóvar (que abordou essa questão expandindo-a para o gênero e a sexualidade).
      A condição angustiante dos hungareses talvez resida no seu isolamento, tanto na aldeia como no sítio, a falta do outro em quem se espelhar e se reconhecer, sobretudo na afirmação das diferenças, sem que esse outro seja a negação da própria cultura. É o conflito angustiante dos exilados, pois correm o risco de, mais dia menos dia, naufragar na assimilação, enquanto lutam para afirmar, no outro, a marca de sua diferença. Resta, como numa frase do personagem de Almodóvar no cárcere, agarrar-se à auto-expressão, pois “la arte es garantia de salud”. 
      Voltando ao romance, às vezes fica-se com a ligeira impressão de que, em certos momentos, as vozes soam indiferenciadas, como se traíssem um mesmo sujeito de enunciação. Esse desafio, fazer as vozes falarem com dicção própria, marcadamente diferentes uma da outra, é a maior dificuldade quando o autor trabalha com mais de um narrador. Talvez essa impressão se deva por elas, as vozes, estarem muito próximas, por ocuparem o mesmo espaço/tempo narrativo, ou melhor, olharem o material de um mesmo ponto de vista. Talvez se as vozes conflitassem ao abordarem um mesmo assunto, ou se se referissem a assuntos bem distintos, com colorido próprio, talvez ficasse mais clara sua alteridade. 
      Mas apesar disso, e de alguns cochilos da revisão, “Os Hungareses” é expressão pura de inteligência intuitiva, desde as primeiras linhas nos sentimos em companhia de boas mãos. Nos entregamos já na largada, sem travar nem temer passo em falso durante a leitura, o que atesta a firmeza da abordagem dos assuntos pela autora. Aliás, transbordam sabedoria e clareza existencial em toda a narrativa. Somos brindados a cada página com belas frases, como a que vai de epígrafe neste texto. Vale a pena ampliar a citação:

      “Até hoje, quando busco pelas lembranças da minha aldeia, é a paisagem desses dias que me chega num silêncio fresco de quem acabou de acordar. E me vejo em meio a essa paisagem como se nunca tivesse saído de lá. Acho que sou feita de memória e o passado é o meu presente.”

      Há em todo o romance a solidão de um mundo sem Deus, criaturas abandonadas muitas vezes a um destino cruel, sem misericórdia. A maldade fria da avó torta é também emblemática, soa como um rito de passagem para um mundo adulto sem esperança. Nesse sentido, o livro chega a ser desolador, a pungente condição das personagens em certos trechos nos enche de tristeza, como se soubéssemos a todo instante que o destino final seria o mergulho no fundo da piscina. Mas aí entra Tia Rózsa que, a exemplo da mãe, dá alguma estabilidade à sobrinha neta, ao menos a clarividência de antecipar algumas consequências dos atos, o que já é um grande passo para a maturidade e a superação do trauma. 

Foto de Madalena Schwartz (1921-1993), fotógrafa húngara,
que curtia o teatro underground de São Paulo 

      O destino no teatro será a resposta individual da narradora a essa alma torturada e livre de todos nós, hungareses. Embora saibamos que, no conjunto, a alma estrangeira será em parte assimilada no silêncio da agonia, ficamos gratos e até um pouco felizes ao perceber que, como diria Drummond, de tudo afinal fica um pouco. No caso aqui, não foi pouco, foi uma ponte destinada a ligar os dois pontos da linha cortada pelo Atlântico. Nesse sentido, a viagem da narradora à terra de seus ancestrais é a garantia da saúde, o religamento, a re-união de uma comunidade seccionada por um mundo/mito sem Deus. Tomara chegue esse dia, quando os irmãos de lá reconhecerão os irmãos do lado de cá, trabalho possível também e sobretudo por uma boa tradução.
      Embora a pungência desses destinos, não há como não ficar impactado com situações muitas vezes hilárias, bizarras, totalmente fora da casinha. Que gente, que situações, e que humanidade! E que lance o de Suzana Montoro ao recriar todo esse universo, ao dar, a uma existência que esse tempo velhaco imaginava engolir sem deixar traços, uma expressividade vivaz, cheia de talento, técnica e sabedoria. 
      É a vitória da memória sobre o tempo. 
      E isso tudo num primeiro romance. 
    Para arrematar, cito as palavras finais da nota da autora, referida logo no início da resenha: 

      “Os nomes estão trocados, as histórias são inventadas, mas quem viveu no sítio ou conviveu com elas sabe que é tudo verdade.”









Leia Mais ►