segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

As ruas em movimento e a democracia direta.

Entrevista especial com Bruno Lima Rocha
Instituto Humanitas - UNISINOS - 09/12/2013



"Hoje precisamos de uma cultura política que desconstrua lideranças carismáticas e devote ao coletivo e ao indivíduo associado, organizado em grupos de interesse ou de ideias, o protagonismo da política", afirma o jornalista e cientista político.


“Precisamos de modelos democráticos nos quais o tempo social seja compartilhado também com a participação política, além do lazer (ócio criativo), do descanso e do processo produtivo. Isso só se assegura com a democracia de tipo direto, participativo, deliberando em coletivo e formando politicamente uma ampla parcela da população. A democracia representativa está superada porque a figura do tribuno como alguém acima, e não a serviço de quem o elegeu, é algo próximo do absurdo. Hoje precisamos de uma cultura política que desconstrua lideranças carismáticas e devote ao coletivo e ao indivíduo associado, organizado em grupos de interesse ou de ideias, o protagonismo da política.” A análise é do professor Bruno Lima Rocha, que concedeu entrevista por e-mail à IHU On-Line.

De acordo com ele, vivemos hoje uma crise de representação, marcada pela ausência de instrumentos de democracia direta e por uma prática política voltada à governabilidade — portanto, caracterizada pelo barramento das mobilizações sociais. “É preocupante imaginar que as únicas esquerdas válidas para o Estado brasileiro venham a ser as agrupações eleitorais de todo tipo, as que reforçam o modelo de intermediação, o partido de tipo burguês, ou quando muito uma vanguarda autoconvocada que insiste na ‘tática’ eleitoral.

O conceito dos Black Blocs é — por sua natureza — pulverizado, e os governos de turno estão reprimindo uma nova cultura política, apenas isso. Temos de pensar na violência sistemática da repressão de uma polícia militarizada e que encara a população como sendo um alvo e suspeito permanente. No Brasil, a segurança é patrimonial e voltada contra a pobreza. A revolta das ruas é decorrente desta percepção, e não o contrário”, destaca.

Bruno Lima Rocha é cientista político, com mestrado e
doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, e jornalista graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. É professor de Relações Internacionais na ESPM-Sul e de Comunicação Social – Jornalismo na Unisinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual foi a contribuição dos protestos pela redução do preço das passagens ocorridos no início de 2013 em Porto Alegre para as manifestações que eclodiram pelo país em junho?

Total. Se não houvesse os protestos, aliás, organizados todos os anos a partir do verão de 2005, as passagens urbanas em Porto Alegre não teriam sofrido a redução. Assim, podemos analisar uma situação clássica. O protesto social levou a um impasse político, considerando que a Justiça se viu obrigada a intervir, “emparedando” o prefeito José Fortunatti (PDT). Repito, se não fosse a mobilização convocada pelo Bloco de Lutas e o empenho das forças político-sociais que o compõem, nada haveria acontecido. Lembro-me de haver escutado nas maiores emissoras de rádio do estado declarações tanto do prefeito como do vice (Sebastião Melo, PMDB) afirmando que o aumento era inexorável. Ou seja, o Poder Executivo da capital não retrocederia mesmo tendo a maior parte dos votos no conselho que executa ou refuta os aumentos. Uma vez que houve esta vitória pontual, como se diz na política, “abriu a porteira”, criou-se um precedente, levando o exemplo para São Paulo e Rio. Uma vez que o início dos protestos organizados pelo Movimento Passe Livre (MPL-SP) sofreu uma brutal repressão da Polícia Militar naAvenida Paulista — sendo que o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) comanda a PM e a causa tinha como alvo o aumento aprovado pelo [prefeito paulistano e] ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT) —, percebeu-se a unidade política para conter as forças sociais e políticas (à esquerda da tal da governabilidade). O resultado, com o advento dos atos no Rio — sendo que tanto o governo fluminense como o carioca também são alvos de investigação e escândalos de grande envergadura —, foi a nacionalização das manifestações e sua decorrente radicalização.

IHU On-Line - A partir desta pressão popular e de um pedido de liminar protocolado pelo PSOL, o juiz Hilbert Maximiliano Obara, da 5ª Vara Judicial da Fazenda Pública, suspendeu em abril o reajuste das tarifas alegando "fortes indícios" de aumento abusivo. A decisão do magistrado tem mérito individual ou é um indicativo de que a voz das ruas está pressionando o imobilismo estatal?

Mérito coletivo. Eu sempre afirmei que considerava “menos utópico” querer estabelecer outra forma de vida em sociedade, querer uma revolução social ou transformação radical e profunda, do que reformar o sistema capitalista com idealismo de tipo liberal radical ou jacobino. É certo que o juiz procedeu de forma correta, mas sem a pressão popular e a falta da legitimidade do aumento — reforçada com as suspeitas sobre a nota técnica do ano anterior — e a recusa das concessionárias em abrirem suas planilhas, deram-se as condições técnicas para a execução de algo que já havia sido ganho na rua. Uma ação de estilo jacobino — aliás, corretíssima — como a das operações federais a respeito de supostos crimes contra o Estado e o mercado financeiro, levadas a cabo pelo ex-delegado federal Protógenes Queiroz (hoje deputado federal pelo PCdoB/SP) e com o aval do juiz Fausto de Sanctis, resultou numa reversão de expectativas e na punição dos operadores policiais e jurídicos. Quando o que está em jogo é o interesse popular, só as ruas decidem, e, por vezes, o Poder Judiciário pode acompanhar ou o Poder Executivo vir a reverter uma decisão já tomada em função do ônus político daí decorrente.

IHU On-Line - As manifestações de junho também foram precedidas pelos protestos durante a Copa das Confederações — no jogo de abertura, em Brasília, e nas partidas seguintes do Brasil. Estes protestos pediam menos recursos para os megaeventos e mais recursos para a saúde e a educação. Como eles contribuíram para as manifestações seguintes, organizadas principalmente pelo Movimento Passe Livre?

Esta parte da jornada de protestos é muito interessante. Os Comitês Populares da Copa iniciaram ainda em 2010 e eram coordenações de entidades de base e ativistas remando contra a maré do ufanismo advindo da escolha do país como sede do evento da FIFA em 2014 e do COI [Comitê Olímpico Internacional] em 2016. Mas, a partir do mau exemplo e das más consequências da Copa do Mundo da África do Sul para a população mais pobre do país — estive lá em um congresso em julho de 2012 e constatei os efeitos, além de ter contato com vasta literatura a este respeito —, somado ao aumento da navegação por internet, fazendo com que as minorias organizadas tivessem uma base de recepção, opinando a respeito do tema para além da “futebolização” cotidiana, vimos algo inimaginável no país.

Nunca se imaginou um movimento de multidões protestando contra a realização de um evento esportivo no Brasil, menos ainda um evento teste para a Copa do Mundo. Isto representa um câmbio na cultura política do país, encerrando a estampa de que vivemos de “pão e circo” ou então do “futebol como ópio do povo”. É interessante observar que tais manifestações não eram contra o esporte como cultura de massas, mas julgavam — e seguem julgando — inapropriadas as exigências da FIFA e os gastos decorrentes.

Os protestos e a questão da Copa no Brasil foram reforçados pelo evento do Pan-americano do Rio, em 2007, quando o orçamento estourou, as obras não foram bem feitas (vide a cobertura do estádio do Engenhão) e houve uma explosão de violência policial na cidade do Rio e em sua área metropolitana (conhecida como Rio Body Count). Ah, não podemos nos esquecer da tentativa de demolição do conjunto arquitetônico do Maracanã (Estádio Célio de Barros, Parque Aquático Júlio Delamarque, Aldeia Maracanã), cuja resistência ganhou visibilidade e expôs relações pouco ou nada ortodoxas entre o Poder Executivo do Rio e os grupos interessados na gerência da obra após sua privatização. Mudou a pauta do país, e isso é uma vitória do movimento popular e mérito dos pioneiros que organizaram os Comitês Populares da Copa.

IHU On-Line - Este conjunto de manifestações tem alguma relação com os protestos realizados em outubro em São Paulo e no Rio de Janeiro, marcados pela violência?

Sim, tem sim. Observe-se que, no Rio, a luta se qualifica com a junção do Sindicato Estadual dos Profissionais em Educação (SEPE) e os manifestantes de junho. O aumento da violência policial eleva a capacidade de resposta da utilização da tática conhecida como “Black Bloc”. Já em São Paulo, os protestos mais populares têm o perfil típico da revolta das periferias ou então dos movimentos em defesa da moradia. Não posso esconder o fato de que, por vezes, são convocados protestos de forma desvinculada da luta popular mais cotidiana (como a dos trabalhadores em educação), mas, se tomarmos o Rio como epicentro da continuidade após julho, a situação lá se assemelha ao narrado no filme Tropa de Elite 2.

Há uma percepção de conluio e corrupção endêmica entre o poder político e o agente econômico (como no episódio lamentável do Papódromo, conhecido também como Piscinão de Guaratiba), e esta ideia atravessa os protestos, assim como a CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] na Câmara de Vereadores [do Rio de Janeiro] a respeito dos concessionários de linhas de ônibus. A violência no Rio explode também em função da desaparição forçada do pedreiro Amarildo e do agendamento desta luta. A palavra de ordem “a polícia que reprime na avenida é a mesma que mata na favela” unifica setores importantes e gera uma identidade comum.

IHU On-Line - Dentro desta perspectiva, é possível apontar para onde a democracia representativa irá nos levar?

Para onde já estamos. Uma crise de representação, a ausência de mecanismos de tipo democracia direta — por isso a tragédia da ausência dos elementos de democracia eletrônica de forma plebiscitária que constavam no relatório original da reforma política — e o reforço da lógica do descolamento do representante para os supostos representados. Infelizmente, no jogo real, assume-se a máxima que “voto é marketing, o resto é política”. A democracia representativa gera o pacto pela tal da governabilidade e necessita do estancamento das mobilizações populares.

IHU On-Line - E a violência poderá nos levar para onde?

A violência policial elevou o nível de protesto no Brasil e isso pode implicar uma escalada repressiva e de perseguição política como a que já estamos vivendo em forma inicial aqui no Rio Grande do Sul e noRio de Janeiro. É preocupante imaginar que as únicas esquerdas válidas para o Estado brasileiro venham a ser as agrupações eleitorais de todo tipo, as que reforçam o modelo de intermediação, o partido de tipo burguês, ou quando muito uma vanguarda autoconvocada que insiste na “tática” eleitoral. O conceito dos Black Blocs é — por sua natureza — pulverizado, e os governos de turno estão reprimindo uma nova cultura política, apenas isso. Temos de pensar na violência sistemática da repressão de uma polícia militarizada e que encara a população como sendo um alvo e suspeito permanente. No Brasil, a segurança é patrimonial e voltada contra a pobreza. A revolta das ruas é decorrente desta percepção, e não o contrário.

IHU On-Line - A democracia representativa está superada?

Sim e não. Não está porque é um instrumento considerado válido pela maior parte das forças políticas. E sim porque esta democracia não garante o mando do povo (demo + cratos) como nos explicam os radicais gregos do termo. Precisamos de modelos democráticos nos quais o tempo social seja compartilhado também com a participação política, além do lazer (ócio criativo), do descanso e do processo produtivo. Isso só se assegura com a democracia de tipo direto, participativo, deliberando em coletivo e formando politicamente uma ampla parcela da população. A democracia representativa está superada porque a figura do tribuno como alguém acima, e não a serviço de quem o elegeu, é algo próximo do absurdo. Hoje precisamos de uma cultura política que desconstrua lideranças carismáticas e devote ao coletivo e ao indivíduo associado, organizado em grupos de interesse ou de ideias, o protagonismo da política.

IHU On-Line - É possível conceber um modelo de organização política democrática sem a presença de partidos?

Sem partidos de tipo burguês, de tipo intermediário, sim. Sem vanguardas autoeleitas e autoimbuídas da liderança da classe ou qualquer outra sensação semelhante de “destino histórico”, também. Sem minorias organizadas, ideológica e politicamente organizadas, não. Precisamos de organizações políticas não eleitorais para que a população entenda que a política pode estar a serviço das maiorias, trabalhar para organizar o tecido social e não tomar proveito de suas expressões sociais.

IHU On-Line - Qual é a contribuição do anarquismo para as manifestações de junho e de outubro?

São dois temas distintos. Já afirmei em outras ocasiões que o anarquismo organizado, o anarquismo que se manifesta através da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), é diretamente responsável pela existência mesma das manifestações. Não se trata de hegemonia, mas de influência, de participação direta, de trabalho de base de no mínimo uma década, de haver insistido na rearticulação do tecido social mesmo durante o “co-governo” atual (Lula e Dilma). Esta é a contribuição do anarquismo conhecido como de linha especifista, ou organicista, ou organizado politicamente.

Já o emprego da tática conhecida como Black Bloc não passa pelas federações ou coletivos filiados na CAB, mas sofre influência da transmissão de símbolos advindos da chamada autonomia europeia, que depois deriva para os protestos antiglobalização (como Seattle 1999 e Gênova 2001) e assume o emprego atual. As denúncias da violência cotidiana são parte constitutiva do pensamento anarquista desde sua estruturação na ala federalista da 1ª Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT, 1864-1871), quando o pensamento político que entende a liberdade individual e coletiva como confluentes com a justiça social e a igualdade de direitos se expressa por dentro das lutas operárias e populares da época. Como o anarquismo também é a expressão ideológica do antimilitarismo, este conjunto de ideias fornece os elementos para expressar estas denúncias.

IHU On-Line - Como se manifestam as violências praticadas pelo Estado e pela organização do capital no cotidiano?

Creio que parte desta pergunta eu respondi antes. Mas posso reforçar que o modelo pós-fordista, que nos obriga a trabalhar, estar conectados, estudar em turnos extras e fazer cursos de formação infindáveis, acaba operando como elemento de violência, sujeitando os sentidos, uma versão cibernética do queFoucault conceitua como a subordinação dos corpos para o mundo do trabalho — ou para a ação militar. As violências do Estado no cotidiano são visíveis, e por isso mesmo os brasileiros têm uma péssima apreciação das polícias visíveis. Já o mundo do trabalho nos força a pensar de forma individual, nos atomiza, nos fragmenta, gera a “individuação”, fruto da fragmentação social. Eu diria que a violência do modelo pós-fordista é mais constrangedora do que a violência física da repressão policial ou das formações paralelas, como as redes de narcotráfico ou os para-policiais (a exemplo das milícias no Rio).

IHU On-Line - Gostaria de comentar algum ponto adicional?

Entendo que o debate a respeito da soberania popular e do destino coletivo está seriamente ameaçado pela crescente criminalização dos protestos sociais no Brasil. É preciso atenção sobre o tema e um posicionamento político. 2014 não será um ano tranquilo para o país, em todos os sentidos.


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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Protesto indígena contra nova ameaça aos seus direitos

ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL
APOINME – ARPIN SUDESTE – ARPIN SUL – Conselho dos Povos
Indígenas de Mato Grosso do Sul -
ATY GUASU - COIAB

Índios dançam e cantam ao redor do prédio onde trabalha
a presidenta Dilma Rousseff

APIB: NOTA DE REPUDIO AO PROPÓSITO DO MINISTRO DA JUSTIÇA JOSÉ EDUARDO CARDOZO DE MUDAR O PROCEDIMENTO DE DEMARCAÇÃO DAS TERRAS INDÍGENAS


A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB, considerando a decisão do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, de tornar pública a sua decisão de modificar o procedimento administrativo de demarcação das terras indígenas estabelecido pelo Decreto 1775/96, vem de público repudiar esta outra medida de afronta grosseira ao direito originário dos nossos povos às terras que tradicionalmente ocupam, postergando, mais uma vez, indefinidamente o dever do Poder Executivo de demarcar e proteger essas terras, conforme determina a Constituição Federal.


Submisso aos propósitos do latifúndio, do agronegócio e de outros capitais interessados nos territórios indígenas e suas riquezas, o governo Dilma, confirma com esta medida, se efetivada, o seu viés anti-indígena: o que menos demarcou terras indígenas e o que mais avançou na restrição ou supressão dos direitos indígenas, por meio de decretos e portarias inconstitucionais.

A proposta de Portaria de mudança do procedimento administrativo de demarcação, vem não só a se somar mas a reiterar os propósitos da Portaria 419/2011, da Portaria 303/2012, do Decreto 7957/2013; das PECs 215/2000, PEC 237/2013 e PEC 038/1999; do PL 1610/1996 e do PLP 227/2012. Todos esses instrumentos buscam inviabilizar e impedir o reconhecimento e a demarcação das terras indígenas, reabrir e rever procedimentos de demarcação de terras indígenas já finalizados; e facilitar a invasão, exploração e mercantilização dos nossos territórios e suas riquezas. A proposta de Portaria entrega ao comando dos nossos inimigos o destino dos nossos povos e suas futuras gerações, cuja vida não tem sentido sem suas terras garantidas.

Contrariamente às alegações do governo, a dita Portaria eterniza a não demarcação de terras indígenas, fragiliza por vez a Funai, e desenha um quadro assustador de acirramento de conflitos, de criminalização e de violência contra os nossos povos e comunidades que inúmeras vezes tem reafirmado lutar até as últimas conseqüências na defesa de seus direitos.

O governo, no entanto, por meio do Ministério da Justiça, ainda tenta inescrupulosamente envolver lideranças nossas que fazem parte da Comissão Nacional de Política Indigenista – CNPI, para legitimar os seus torpes propósitos.

Por tudo isso, a APIB chama a todos os povos, organizações e lideranças indígenas do Brasil a permanecerem unidos no repúdio e pela rejeição total a esta nova tentativa de reduzir os direitos indígenas originários assegurados pela Carta Magna.

Brasília – DF, 02 de dezembro de 2013.

ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL - APIB




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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Roessler e o pioneirismo ambiental no Rio Grande do Sul

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - 02/12/2013

A historiadora Elenita Malta Pereira resgata o histórico de lutas de Henrique Luiz Roessler, fundador de uma das primeiras entidades de proteção à natureza do País e precursor de discussões que ainda hoje permanecem atuais
Por: Andriolli Costa



A defesa do meio ambiente, a preocupação com a preservação da natureza e a busca por minimizar os impactos causados pelo homem ao equilíbrio natural da vida podem
parecer preocupações contemporâneas, ligadas ao ambientalismo ou às recentes discussões de sustentabilidade. No entanto, de acordo com a historiadora Elenita Malta Pereira, a proteção da natureza já era um debate levantado desde o início do século XX por uma série de organizações, políticos e intelectuais. Neste contexto, ganha destaque a figura de Henrique Luiz Roessler, cuja morte completa 50 anos em 2013. Natural do Rio Grande do Sul, filho de imigrantes alemães, ele é tido por muitos como o pioneiro da ecologia e precursor do ambientalismo no Brasil. Elenita prefere outro termo: “Protetor da natureza”.

A historiadora é autora de uma biografia lançada em novembro deste ano que resgata o histórico de lutas de Roessler, sua relação com o meio ambiente — especialmente na cidade de São Leopoldo, onde cresceu —, os conflitos em que se envolveu e a sua visão de mundo. “Roessler construiu um discurso crítico à forma como o progresso era conduzido: as pessoas erravam ao priorizar os bens materiais, a técnica, o ganho imediato, em vez de procurarem uma ligação maior com a natureza.”, afima ela em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. O protetor da natureza denunciava caça e pesca ilegais, militava pelos direitos dos animais, pela educação e proteção ambiental e uma série de outros temas bastante contemporâneos. Engajado, frequentemente escrevia para políticos e presidentes cobrando atuação mais presente nas questões ambientais. “Muitos desses temas permanecem atuais, porque, infelizmente, passados 50 anos da morte de Roessler, os problemas não foram resolvidos.”

Elenita Malta Pereira é graduada, mestre e doutoranda em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Sua dissertação intitula-se Um protetor da natureza: trajetória e memória de Henrique Luiz Roessler, que deu origem ao livro Roessler: O homem que amava a natureza (São Leopoldo: Oikos, 2013). A publicação teve lançamentos oficiais na Feira do Livro de Porto Alegre e em São Leopoldo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que fez com que você desenvolvesse este trabalho? O que lhe chamou a atenção na vida de Roessler?

Ainda na graduação em História, comecei a pesquisar na linha da História Ambiental, área que tenta compreender as relações homem-natureza ao longo do tempo. Meu primeiro tema foi a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN) e, ao entrevistar um dos principais fundadores, Augusto Carneiro , entrei em contato com a figura de Roessler, que é patrono da entidade. Também em 2005, o professor de História da UFRGS Benito Schmidt publicou um artigo no jornal Zero Hora sobre dez personalidades gaúchas que ainda não tinham biografia. A partir desse estímulo e interesse iniciais, lancei-me à tarefa em minha dissertação de Mestrado.

Num primeiro momento, ao ler os textos de Roessler, escritos nos anos 1950, fiquei impressionada com a atualidade de suas ideias. No entanto, acompanhando sua trajetória, compreendi que os problemas ambientais já existiam naquela época — hoje só se agravaram. Também me interessei pela memória construída sobre Roessler, de “visionário”, “pioneiro da ecologia”, “pioneiro do ambientalismo”, etc. Como demonstrei na pesquisa, o próprio Roessler já construía uma memória positiva de si mesmo para a posteridade, o que a historiadora Ângela de Castro Gomes chama de “construção de si”. Pude entender que ele não era um visionário, mas sim um observador de olhar aguçado sobre seu próprio tempo.

IHU On-Line - Quais são as origens do ambientalismo no Brasil? De que forma essas iniciativas influenciaram Roessler?

Na verdade, o que se pode chamar de “ambientalismo” só surge no Brasil nos anos 1970, com a AGAPAN, que influenciou uma série de outras entidades no Rio Grande do Sul e no resto do país. No início do século XX, havia indivíduos (como Euclides da Cunha , Hermann von Ihering , Alberto Löfgren e Alberto Torres , entre outros) e algumas entidades civis preocupadas com a devastação das florestas, proteção aos animais, criação de parques naturais, que poderíamos definir como defensores de um preservacionismo e/ou conservacionismo .

Entidades como o Centro Excursionista Brasileiro , fundado em 1919; a Sociedade dos Amigos das Árvores, fundada em 1931 pelo botânico Alberto Sampaio; e a Sociedade Amigos de Alberto Torres , de 1932, foram importantes centros de incentivo à proteção do ambiente natural. Nos anos 1930, houve um intenso debate no centro do país sobre “proteção à natureza”, que resultou na publicação de uma série de leis ambientais durante o governo Vargas e na realização de um importante evento: a Primeira Conferência Brasileira de Proteção à Natureza, em 1934, no Rio de Janeiro. Antes disso, nos séculos XVIII e XIX, havia discursos críticos à devastação (como o de José Bonifácio , por exemplo), que podem ser considerados uma espécie de “crítica ambiental”, no entanto, de viés utilitarista: era preciso preservar a natureza para o bem da economia nacional.

A publicação das leis ambientais a partir de 1934 (Códigos Florestal, das Águas, Caça e Pesca, lei de proteção aos animais, etc) foi muito importante, pois motivou o oferecimento de Roessler para fazer parte da polícia florestal que estava sendo organizada com o objetivo de dar cumprimento ao Primeiro Código Florestal Brasileiro. Ele assumiu o cargo de Delegado Florestal em 1939 e de Fiscal de Caça e Pesca em 1944, ambos vinculados ao Ministério da Agricultura (na época, responsável pela proteção à natureza).

Também as entidades que já existiam no Rio de Janeiro e São Paulo inspiraram Roessler na fundação da primeira associação de proteção ambiental em sentido mais amplo do RS, em 1955. Para não cair em anacronismo, considerei mais adequado chamar seu trabalho de “proteção à natureza”, conceito que o próprio Roessler utilizou no nome da entidade e que define bem as atitudes que tomou em prol da natureza ao longo da vida. O projeto defendido por Roessler estava no ponto de transição entre um discurso preservacionista/conservacionista e um mais político, ambientalista.

IHU On-Line - Em uma época em que o progressismo e a industrialização do País eram a norma, o que levou Roessler a ter as atitudes e iniciativas pelas quais ficou conhecido?

Em primeiro lugar, a observação do desmatamento das matas ciliares do rio dos Sinos, no cargo de Capataz do Ministério da Marinha (que ele assumiu em 1937), aliado à publicação das leis referidas acima, motivaram que ele acumulasse os cargos de fiscalização das florestas, da caça e da pesca. Além disso, Roessler era uma pessoa sensível e conhecia muito bem o rio, pois morou na Rua da Margem durante a infância e seu pai era condutor de barcos que faziam a viagem entre Porto Alegre e São Leopoldo, pelo rio dos Sinos. Um fator importante é que Roessler gostava de estar bem informado, assinava e lia jornais e revistas de circulação nacional importantes de seu contexto, como Caça e Pesca , Chácaras e Quintais e Fauna . Sempre que possível, também lia periódicos europeus, que citava em suas crônicas no jornal Correio do Povo, já nos anos 1950-1960. Essas publicações tratavam de temas como orientações a caçadores e pescadores, devastação e necessidade de proteção florestal, agricultura, cuidados com os pássaros, etc. Pesquisando textos da época e discursos de deputados na Assembleia Legislativa - RS, pude verificar que já havia um debate incipiente sobre proteção à natureza, sobre os problemas ambientais daquela época. Dessa forma, com a bagagem cultural formada nos anos como fiscal, observando a realidade do Estado, aliado às leituras realizadas, Roessler construiu um discurso crítico à forma como o progresso era conduzido: as pessoas erravam ao priorizar os bens materiais, a técnica, o ganho imediato, em vez de procurarem uma ligação maior com a natureza.

IHU On-Line - Qual era a relação de Roessler com o governo nacional, de Vargas a JK? Ele era apoiado ou perseguido?

Um aspecto interessante que a pesquisa revelou foi o bom relacionamento de Roessler com os políticos, especialmente do Partido Trabalhista Brasileiro (o antigo PTB). Ele era admirador fiel de Getúlio Vargas e sentiu sua morte como “um duro golpe”. Em momentos difíceis, solicitou a ajuda de “correligionários” para defendê-lo, como no processo judicial movido por caçadores de passarinhos de ascendência italiana, em 1954. No entanto, Roessler mantinha relações com políticos de outros partidos também. Por exemplo, admirava Jânio Quadros , pois publicara leis protecionistas como governador de São Paulo (1955-1959). Quando foi empossado Presidente, em 1961, Roessler chegou a enviar-lhe carta solicitando que tomasse medidas para proibir e punir o despejo de detritos in natura nos rios — naquela época, os maiores responsáveis pela poluição eram as indústrias, especialmente os curtumes, no caso do rio dos Sinos. Jânio Quadros atendeu seu pedido, publicando uma portaria que foi transformada em decreto (50.877/61), estabelecendo punição mais rigorosa dos estabelecimentos que lançassem resíduos nos rios. Se Roessler teve inimigos, não foram políticos; seus maiores oponentes, como o livro demonstra, foram os caçadores de passarinhos — os chamados passarinheiros —, com quem ele teve vários embates físicos e verbais.

IHU On-Line - Roessler fundou em 1955 a União Protetora da Natureza - UPN, em São Leopoldo, considerada uma das primeiras entidades de proteção à natureza do País. Como se deu esse processo?

Um novo estatuto dos funcionários públicos foi publicado em 1952, que não admitia funções públicas não remuneradas. Por isso, Roessler e outros fiscais florestais foram destituídos de seus cargos, no final de 1954. O afastamento da fiscalização motivou Roessler a fundar a UPN, a primeira entidade civil de defesa ambiental do Rio Grande do Sul, seguindo o modelo de associações europeias e brasileiras. Os principais objetivos da entidade eram a educação de crianças e jovens para a proteção da natureza e o incentivo ao aprimoramento das leis ambientais. A UPN era mantida pelas mensalidades de sócios e doações de empresas e pessoas que admiravam o trabalho de Roessler. Como fundador e único presidente da entidade, ele empreendeu uma campanha educativa através da distribuição de panfletos, proferimento de palestras em escolas e clubes como Lions e Rotarys , e publicou cerca de 300 crônicas no jornal Correio do Povo entre 1957 e 1963, ano de seu falecimento.

IHU On-Line - Quais eram as temáticas tratadas na produção escrita de Roessler?

Em seus textos, Roessler denunciava a degradação do ambiente e oferecia soluções, relatava as atividades da UPN e conclamava os leitores à ação. Os temas mais frequentes eram a poluição das águas, a questão florestal (desmatamento, queimadas, reflorestamento), a caça — especialmente de passarinhos —, os direitos dos animais (seu uso como cobaias e a vivissecção), a pesca predatória, a educação para a proteção ambiental, o questionamento da noção de progresso, a vida nas grandes cidades e a alienação humana perante a natureza. Muitos desses temas permanecem atuais, porque, infelizmente, passados 50 anos da morte de Roessler, os problemas não foram resolvidos.

IHU On-Line - Henrique Roessler nasceu em Porto Alegre, mas morou a maior parte da vida em São Leopoldo. Seu nome é inclusive utilizado para batizar ruas, pontes e outros monumentos. Como foi a relação dele com a cidade? Você acredita que a figura de Roessler e sua história são lembradas no Rio Grande do Sul?

Ele se relacionava muito bem com autoridades (policiais, políticos, etc.), empresários, pescadores e caçadores, desde que agissem de acordo com as leis. Pelo que alguns entrevistados me relataram, Roessler não gostava de festas, agitação, era uma pessoa calma que preferia o sossego do convívio familiar. Por seu trabalho de proteção à natureza, foi homenageado pela cidade em 1953, ganhando o título de “cidadão Leopoldense” e a medalha “Honra ao Mérito” de São Leopoldo.

Pelo que pude averiguar, analisando os “lugares de memória” dedicados a Roessler, apesar de existirem várias iniciativas nesse sentido, o esquecimento não foi evitado. Por exemplo, Roessler batiza a área de Novo Hamburgo conhecida como “Parcão” — nome inscrito numa grande placa na entrada do local. Quando estive lá, apenas uma pequena folhinha A4 mencionava as regras do “Parque Henrique Luiz Roessler”. A população da cidade continua chamando o local de “Parcão”, a maioria nem sabe seu nome de fato.

IHU On-Line - Como acredita que a biografia que escreveu é capaz de colaborar para a memória do ambientalista?

Não tenho a pretensão de fixar uma memória sobre Roessler, mas se de alguma forma seu trabalho em prol da natureza tornar-se mais conhecido entre estudantes, professores, ambientalistas e público em geral por causa do meu livro, será uma satisfação para mim. Certamente, os três anos de pesquisa terão valido a pena.

Leia mais...
Elenita Malta Pereira já concedeu uma entrevista à IHU On-Line:
* Henrique Luiz Roessler, um protetor da natureza. Edição 380, de 14-11-2011.

Elenita Malta Pereira também já publicou um artigo nos Cadernos IHU:
* Sacralização da natureza: Henrique Luiz Roessler e as ideias protecionistas no Brasil (1930-1960). Edição 38, de 27-02-2012.


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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

“É preciso entender as redes e as ruas”

Publicado no Instituto Humanitas - UNISINOS - 27/11/2013
Fonte: Revista Fórum


Para Laymert Garcia dos Santos o conflito de classes, em escala global, começa a acontecer no meio digital. E parte da esquerda ainda não percebeu o potencial politizador que se encontra ali.

Segundo Laymert Garcia, “o caso Snowden é o
último elo de uma cadeia que vem vindo de várias outras que já entenderam o enorme potencial das redes, de politizar as questões simplesmente pela circulação dos fluxos de informação. Por quê? Porque se o Estado e o mercado podem saber tudo sobre a população, explorando isso do ponto de vista do controle, por outro lado os movimentos também podem.” A ponderação é de Laymert Garcia dos Santos, doutor em Ciências da Informação pela Universidade de Paris VII e professor titular do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, e remete à importância de se debater o funcionamento das redes e sua relação com as ruas, algo que veio à tona com as manifestações de junho no Brasil.

A entrevista é de Glauco Faria e Igor Carvalho e publicada pela Revista Fórum, 26-11-2013. Foto:Igor Carvalho.

Para Laymert, o advento do Wikileaks fez com que se prestasse mais atenção sobre quais informações as elites gostariam que não fossem reveladas. “O conflito de classes, em escala global, começa a acontecer nas redes, porque existe uma política de controle e hierarquização da informação nas redes, e, do outro lado, há gente trabalhando para a desobstrução dos canais”, afirma. “E isso é democracia, porque se você começa a fazer todo o fluxo de informação passar, as pessoas ficam sabendo o que os de cima não querem que elas saibam.”

Eis a entrevista.

Como o senhor enxergou as manifestações de junho, principalmente o envolvimento delas com as novas tecnologias?

As manifestações de junho foram uma grande surpresa para mim porque, pouco menos de um mês antes das manifestações, fiz uma palestra na PUC e introduzi dizendo que tenho 65 anos, mas gostaria de ter 30, porque achava que essa nova geração, no Brasil sobretudo, tinha uma oportunidade como nunca tivemos na história. O país entrou no mapa, aconteceu com a era Lula uma transformação social, com a inclusão de 40 milhões de pessoas, mas também por conta de uma política externa e cultural muito diferente do que tinha havido anteriomente. Isso abriu uma oportunidade nova de o país buscar o rumo que tinha tentado em 1964, mas, enfim, é a primeira vez que estávamos na cena mundialmente, e isso muda tudo.

Queria ter 30 anos hoje porque pela primeira vez não precisamos dizer “sim, senhor”, e isso dá para as novas gerações, e para o futuro, uma abertura inédita na história brasileira. Um pouco mais de um mês depois vieram as jornadas de junho, aí pensei: “Ou estou completamente fora de sintonia sobre o que está acontecendo, ou aquilo que estava dizendo continua valendo de alguma maneira, mas preciso entender o que é esse descontentamento e isso que está acontecendo nas ruas”.

Fiquei muito dividido quando as jornadas começaram. Embora entendesse completamente a posição do MPL[Movimento Passe Livre] e achasse que essas reivindicações todas que apareceram nas primeiras manifestações eram justas, por mais direitos, elas tinham uma coloração que me incomodava. E me incomodava porque não conseguia situar politicamente ali. Mas por que isso? Porque tinha a memória dos anos 1960. Como havia uma juventude tão descontente se existia, na história recente, uma transformação tão grande? E dava para perceber, na universidade mesmo, que a politização era muito baixa, via isso entre os jovens.

À medida que o tempo foi passando, como todo mundo, fui tentando entender o que estava acontecendo, mas sobretudo buscando compreender o papel das redes sociais. Comecei a achar que havia uma certa esquizofrenia no movimento, e essa esquizofrenia aparecia da seguinte maneira: eram reivindicações que, em geral, pertencem ao campo da esquerda, por mais democracia e direitos, portanto, no campo da esquerda, mas que quando chegava na hora das manifestações, as reivindicações eram verbalizadas com um tom que, no meu entender, era pautado pela mídia, em especial a questão da corrupção do modo como a mídia tinha trabalhado em demasia nos últimos anos.

Chamei de esquizofrênico por isso. De um lado, você tem as reivindicações de esquerda, por direitos, mas ao mesmo tempo com uma linguagem mista e que permitiu, inclusive, uma tentativa de recuperação das jornadas pela direita. Para mim, essa esquizofrenia se duplicava na relação entre novas tecnologias e velhas mídias, porque mostrava a permeabilidade dos jovens à mídia tradicional e à oposição programática que essa mídia tradicional tem com relação aos governos de esquerda. Ela [mídia tradicional] é francamente reacionária e francamente conservadora, considero que se trata praticamente um partido organizado. Por outro lado, há uma utilização das novas tecnologias de uma maneira muito contemporânea e de certo modo bem generosa, de esquerda, mas também misturada com essa coisa de redes sociais. Apesar de saber utilizar muito bem essa mídia para se mobilizar, a juventude não a usava para se informar.

Penso que essa perspectiva não esteja invalidada mesmo com o passar dos meses de julho e agosto, ainda que tenha surgido um fantasma de uma possível recuperação das ruas pela direita. Contudo, esse fantasma passou, e de certa maneira não colou, apesar de em algum momento ter havido uma dubiedade bastante grande que fez com que muita gente da esquerda se espantasse, sobretudo quem viveu 1964, aquela coisa de “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” etc. Um outro aspecto importante diz respeito ao envelhecimento do discurso politico tradicional e da própria mídia, apesar do efeito que causou sobre os manifestantes, em lidar com o assunto. O caráter jurássico da televisão e dos jornais para lidar e cobrir os assuntos ficou evidente. Isso foi um dos efeitos positivos dessa história, por exemplo, se a Globo tem que pedir desculpas, não importa se é hipócrita ou não, é porque alguma coisa aconteceu e arranhou a imagem dela.

Se a Globo começa a pensar que ela precisa ter o Fernando Meirelles para diretor-geral, é porque eles sentiram, com as jornadas de junho, que de repente a linguagem, o modo de abordar ficaram visivelmente superados, e para mim o ponto onde isso apareceu com mais vigor foi na incapacidade de sequer entender o que aqueles meninos do Mídia Ninja queriam dizer. Tentaram criminalizá-los, dizer que era uma mídia chapa-branca, que recebia verbas públicas… O que aconteceu de fato ali, que foi bem importante, é que as repostas deixavam claro que tinha uma outra lógica funcionando, inclusive de trabalho em rede, de cooperação e de colaboração, que escapava do esquema empresarial.

Um dos fatores importantes das jornadas é que houve um update da juventude em relação a uma série de questões, entre elas a redescoberta da rua, que depois vai aparecer nessa espécie de fragmentação de manifestações e reivindicações. Fragmentação que não acho ruim, pois é interessante que as pessoas saibam que elas podem – já podiam, mas não sabiam que podiam – se mobilizar. A questão da rua mudou, mas houve uma politização que começa a acontecer em relação aos próprios meios digitais. Se a passagem do Fora do Eixo para a Mídia Ninja acontece nesse momento não é por acaso; o que antes era uma prática cultural passa a ser uma prática cultural e política ao mesmo tempo, porque abrange uma compreensão sobre fazer política de um outro modo.

Essa questão não está ligada justamente a esse caráter esquizofrênico? Às vezes as pessoas foram lá pautadas pela mídia tradicional mesmo sem saber, e, quando aparece um microfone da Globo, rejeitam essa mesma mídia tradicional. Hoje, observamos que as coberturas ao vivo das manifestações são feitas de cima, de prédios ou helicópteros ou de jornalistas sem identificação, enquanto outras mídias estão no chão, em meio à multidão…
Por isso disse que era esquizofrênico. Por um lado, aquilo que era reivindicado era uma pauta de esquerda, mas a linguagem ainda estava ligada a uma cabeça permeável a essa mídia, e uma das coisas boas que aconteceu é que houve uma politização aí, com relação à própria mídia, e uma distância desse discurso que era um modo de expressão dominante, sobretudo da classe média. Tem várias nuances, quando falo das manifestações, me refiro às grandes que aconteceram nas cidades maiores, que pegavam uma faixa grande de classe média. Porque, desde o começo, se você observava o que se dizia na periferia é “aqui a bala não é de borracha”. Essa foi uma das primeiras coisas que apareceu em relação à repressão policial no centro, a crítica sobre o papel da polícia, o quanto a PM é uma herança da ditadura e a necessidade de se discutir essa questão e modificar a forma como é pensada a segurança…

Existe uma ruptura também no discurso da imprensa, que chegou a defender em editoriais a repressão e, quando seus repórteres foram atingidos pela polícia, passaram a adotar outra postura.

Foi aí que se tornou impossível a repressão das manifestações. Enquanto você está fazendo isso na periferia, tudo bem, não pode fazer onde estão os “nossos filhos”… É como já se disse em relação ao nazismo, enquanto solução de extermínio, genocídio, era feita nas colônias, tudo bem, mas fazer isso no coração da Europa não dá. A lógica é a mesma.

No debate que o senhor participou na USP o senhor falou sobre “vandalismo seletivo”…

Houve num certo momento uma tentativa de se fazer uma distinção os manifestantes, havia os “palatáveis”, como aquele que se enrola na bandeira e a Veja vai fotografar como se fossem os verdadeiros manifestantes porque estão lutando contra a corrupção, tentando fazer colar no governo do PT o carimbo da corrupção, uma questão classe média. Do ponto de vista conservador havia essa distinção, de um lado, há o bom manifestante; do outro, o mau, que é o vândalo, indistinto, é todo mundo que quebra alguma coisa. Conversando com gente que conhece a periferia, os manifestantes que vinham de lá, percebi que havia uma diferença entre os chamados “violentos”, e que não era possível colocar todos no mesmo bloco. Havia agentes provocadores que entravam nas manifestações e que procuravam atingir as instituições, mas com quebradeiras indiscriminadas, e aqueles que chamei de ”destruidores seletivos”, que queriam atingir os símbolos do capital, não estavam atacando qualquer coisa, mas visavam agências de automóvel, bancos e alguns símbolos do capital global, retomando um pouco o que acontece desde Seattle [em 1999].

Nas primeiras edições do Fórum Social Mundial, não era incomum ver a polícia protegendo o McDonald’s, ou seja, protegendo o patrimônio.

A questão do patrimônio… Lembro que um dos grandes “escândalos” em uma das primeiras manifestações foi o ataque a uma agência de automóveis, no mesmo dia em que houve uma intervenção militar na Maré, em que morreram nove pessoas. E o escarcéu foi em torno da agência de automóveis. Se tem, por um lado, uma espécie de violência seletiva, por outro tem de ser sempre lembrado que a questão do patrimônio é mais sacrossanta na visão da mídia tradicional e dos conservadores, e a vida das pessoas, não. Na Maré, ninguém levantou o dedo para apontar que havia ocorrido um verdadeiro massacre.

São essas nuances que é preciso observar para não condenar a violência em bloco, porque existe um certo tipo de violência compreensível e talvez até defensável. Entendo perfeitamente porque ouvi relatos de pessoas que conheciam jovens de periferia que participaram de algumas das ações de violência e que estavam dando o troco por aquilo que recebem todo dia na periferia. Quando existe um momento em que se pode revidar no centro da cidade, entendo, porque sabemos como a periferia é tratada por governos como o do Alckmin, em São Paulo, ou no Rio de Janeiro. A gente sabe como é.

A questão da segurança precisa ser rediscutida, e por isso gostei da capa da Fórum [125] que dizia: “Polícia não pode ser militar”, fazendo uma dissociação que é fundamental. Muito das outras impunidades são herança de uma impunidade na qual existe uma categoria de cidadãos que está acima da lei, e não é só o agente do grande capital, mas está representada no exercício da violência aberta contra a população.

Enquanto não houver uma discussão de fundo sobre a violência que é exercida contra os índios, desde 1500, um genocídio… Tem de colocar esse pacote em cima da mesa, assim como o pacote da Lei de Anistia, é necessário responsabilizar aqueles que na ditadura torturaram, essas pessoas têm de ser punidas. É preciso colocar a questão da segurança mostrando que a polícia não pode tudo, porque também tem de obedecer à lei. Enquanto não acabar essa impunidade, acho difícil que as outras impunidades acabem, porque já se estabelece que há gente que está acima da lei e gente que tem de obedecê-la. Não é possível dizer que se está em uma democracia política, e não estou nem falando social e econômica.

Ou seja, essa seria talvez uma das principais questões a ser tratada, também decorrente das manifestações, começarmos a remover esse entulho autoritário?
Sim, temos de começar a remover esse entulho autoritário, para além das reivindicações específicas. Essa é uma questão de fundo, e temos de levar até o fim o tema da segurança, o genocídio contra os índios… E a outra questão é a das mídias, da mídia velha que ficou patente, e isso é patente, e a relação da juventude com as novas tecnologias. Isso precisa ser trabalhado.

Os manifestantes não aceitam, por exemplo, a Rede Globo nas manifestações, mas os marcos regulatórios das comunicações e da internet ainda não se tornaram bandeiras ativas nas ruas.
Quando comecei a ver algumas manifestações de “Fora Globo” e depois, ainda, manifestações na frente da emissora, paralelamente corria o caso do [Edward] Snowden. No início as questões estavam totalmente dissociadas e depois se juntaram, comecei a prestar mais atenção nele do que no outro pedaço, porque percebi que aquilo era histórico. Quando começaram as manifestações na porta da Globo, comentei aqui em casa: Será que não era mais importante haver manifestações pelo marco regulatório? Será que é mais importante atacar a mídia velha ou já assumir a discussão da regulação das novas mídias, porque é com elas que está o futuro, não está com a imprensa escrita e nem mesmo com a televisão. Será que não é na questão das redes que estaria a questão principal e a briga do marco regulatório? Até porque existem setores do governo que são bastante permeáveis aos interesses das teles, da televisão tradicional, que estão, inclusive, emperrando no Congresso a votação dessa lei.

Existe em vários setores do governo…

Claro. Mas parecia que ainda não era pauta, e de certo modo ainda não se tornou uma pauta política dos jovens, e aquele momento era muito importante para se tornar uma pauta dos jovens, porque juntou tudo quando as revelações do Snowden chegaram aqui, e principalmente quando a presidenta da República tem sua comunicação espionada. Não dá mais para invocar a explicação que eles deram, de que o motivo da bisbilhotagem era só por razões de terrorismo. Torna-se absolutamente necessário um marco que regule a internet, que seja pela proteção da privacidade e que possa se estabelecer uma política digital, necessária até por questões de soberania.

Por outro lado, é preciso que haja uma pressão da sociedade civil e sobretudo dos jovens no sentindo de entender que a questão da defesa da privacidade é política, e é extremamente importante não para você colocar sua fofoca em dia pelo Facebook, o que precisa se defender é uma outra lógica de operação em rede. Essa lógica, de certa maneira, já vem sendo trabalhada no Brasil desde o começo do governo Lula, o Ministério da Cultura do Gil tinha uma estratégia em relação a isso, unir diversidade cultural e cultura digital. Por que isso?

Justamente por ser potência com potência. Potência das novas tecnologias com uma potência de uma cultura popular forte que existe no Brasil, mas que não encontra canal, porque os canais estão estrangulados e dominados por uma produção cultural que não é feita para a população. Ou ela é feita para a elite ou é feita com o objetivo de massa e de indústria cultural, de exploração comercial. Mas a riqueza da cultura popular não é engatada positivamente de tal maneira que possa se desenvolver e criar condições não só para a ampliação, inclusão cultural, mas para que esses jovens possam encontrar uma inserção social através da produção de cultura. O Gil viu isso muito claramente e fez disso uma estratégia, reconhecida internacionalmente, porque nós éramos um dos países que estavam na ponta na relação entre cultura e tecnologia, e na ponta do entendimento da possibilidade que o digital traz, inclusive na política, trabalhando na lógica cooperativa, daquilo que escapa da propriedade intelectual, do software livre, do Commons.

Não é por acaso que o sujeito que inventou o “www” [Tim Berners-Lee] disse que o marco regulatório brasileiro, se aprovado, será o mais avançado do mundo na questão da proteção das liberdades individuais. Por que ele é o mais avançado? Justamente porque já tem um caldo cultural, conversei com alguns desses grandes advogados americanos que trabalham na questão do Creative Commons, do software livre, e eles achavam que tem uma política de ponta no Brasil, uma elaboração feita… Depois que entrou o governo Dilma, isso deu uma arrefecida, veio a Ana de Hollanda [ex-ministra da Cultura], que foi um retrocesso e ainda estamos em processo de retomada. Dá para entender o que eu digo?

Agora, com o fato de os americanos terem feito o que fizeram [espionagem na NSA], temos uma oportunidade de ter uma política de Estado que é crucial, porque é o futuro. A questão do digital é o futuro, não tem volta. Se não estivermos preparados para isso, não estamos preparados para essa autonomia que estamos começando a desenhar, que começou há dez anos, em 2003, e é nessa autonomia relativa que temos de navegar. E pude perceber porque acompanhei de perto, nas ações do Ministério da Cultura, que existia uma sintonia forte entre a nova diplomacia brasileira e o que era a visão estratégica de cultura do Gil. Um entendimento forte em relação a qual era o papel do Brasil na América Latina, seu papel no mundo, que diferença poderíamos fazer, já existe um pensamento no Brasil, uma prática e um conhecimento acumulado que permite que isso tenha vazão, e essa luta da cultura e da tecnologia precisa ser reconhecida como pauta mesmo.

Dentro dessa sua ideia de entender o digital como o futuro e remetendo um pouco às manifestações. Nós tínhamos esse setor do Gil, com o Juca Ferreira, no governo Lula, que tinha esse entendimento muito claro do papel da tecnologia aliada à cultura. Mas as manifestações também não mostraram para certos setores que estão analógicos demais? Ou seja, nossos partidos de esquerda, muitos sindicatos e movimentos sociais não tratam desse tema ainda.

Concordo plenamente com a análise que você faz, tem uma questão que para mim é complicada, a incapacidade que governos do PT tiveram em lidar com a questão da mídia. De certo modo, ela permaneceu intocada, até quando houve momentos em que alguma coisa de mais forte poderia ter sido feito, quando a Globo fez uma aposta errada no mercado financeiro e entrou em uma situação de crise. Ali havia um flanco aberto, mas o governo Lula foi lá e bancou, sem colocar condições.

Isso continua até hoje. Em parte, isso se deve ao fato de a esquerda brasileira nunca ter feito a crítica de fundo da mídia. E nem da tecnologia. A posição de esquerda de partidos, sindicatos etc. é de que os meios são neutros e tudo depende de quem se apropria dessa técnica e, portanto, quando chegar o momento de a esquerda estar no poder, se faz uma inversão de signos. Isso é o máximo que a esquerda pensou sobre essa questão, e há muitos anos venho pensando e batalhando por um outro entendimento, porque não é possível você considerar a tecnologia como algo meramente instrumental, quando ela modifica completamente todos os tipos de relação. A tecnologia, sobretudo depois da virada cibernética, mudou a vida, o trabalho e a linguagem. Ou seja, mudaram as relações. Nessas condições, se você não fizer uma crítica de fundo, vai acabar fazendo aquilo que critica em seu adversário, vai fazer isso achando que colocou um conteúdo de esquerda, mas as práticas serão as mesmas. Assim, vai ser tão manipulatório e antidemocrático quanto antes e, de certo modo, desconhecendo o próprio potencial que a tecnologia traz.

Por exemplo, voltando um pouco, há uma questão que me espantou, que mostra como se pode ao mesmo tempo estar no jogo não sabendo que se está no jogo. Nas grandes manifestações, em junho, todo mundo se volta para o Estado para ver qual será a reação deste Estado. A Dilma vai para a televisão e faz uma proposta de uma Assembleia Constituinte específica para a reforma política. Ela deu uma resposta política que era absolutamente crucial, porque respondeu a uma demanda de poder dos movimentos nas ruas, com algo que ampliava a participação em poder, já não seria o Congresso o ator principal dessa operação. E foi interessantíssimo, bastante elucidativo, porque, ao fazer essa proposta, os conservadores e a classe política inteira se mobilizaram para boicotá-la, primeiro para transformá-la em um plebiscito para que nada acontecesse. Esses setores estão no seu papel, quem não está em seu papel são os manifestantes, que pediam mais poder e, quando você tem a autoridade máxima do Estado acenando e dizendo: “Vamos nessa?”, o outro lado não responde.

Não houve manifestações para isso e nem um entendimento sobre o que significava esse gesto. Ouvi gente dizendo: “Ah, mas era um cálculo político”. Não importa. As ruas emitiram um sinal, e a Dilma emitiu um outro sinal em resposta num sentido de ampliação da democracia como nunca havia acontecido. Os setores da direita imediatamente souberam ler o que estava em jogo, e os manifestantes não souberam. Por quê? Despolitização? Não souberam avaliar? O que aconteceu? Isso me fez pensar que as reivindicações do movimento são restritas, de certa maneira têm um certo fôlego, que não é muito grande, e sendo atendidas algumas reivindicações, você consegue esvaziar. De qualquer maneira, se perdeu uma oportunidade naquele momento, havia uma abertura para uma potência, que não se concretizou.

Para mim, essa perda de oportunidade diz muito sobre a leitura de campos de forças e do entendimento sobre o que é este jogo de forças. Em relação às novas tecnologias, para o PT, para os sindicatos e movimentos sociais, ainda não caiu a ficha da sua importância e que isso pode ser trabalhado de uma outra lógica, colocando em xeque políticas de controle global. O caso Snowden é o último elo de uma cadeia que vem vindo de várias outras que já entenderam o enorme potencial das redes, de politizar as questões simplesmente pela circulação dos fluxos de informação. Por quê? Porque se o Estado e o mercado podem saber tudo sobre a população, explorando isso do ponto de vista do controle, por outro lado os movimentos também podem, e isso o Wikileaks começou a fazer, a prestar atenção sobre quais informações os super-ricos querem suprimir.

O conflito de classes, em escala global, começa a acontecer nas redes, porque existe uma política de controle e hierarquização da informação nas redes, e, do outro lado, há gente trabalhando para a desobstrução dos canais. E isso é democracia, porque se você começa a fazer todo o fluxo de informação passar, as pessoas ficam sabendo o que os de cima não querem que elas saibam. É o que está acontecendo com o Snowden de novo. Isso a própria tecnologia permite como a lógica de funcionamento em rede auxilia na distribuição da informação. O que as pessoas não entendem de jeito nenhum é que a informação é a diferença que faz a diferença, e também é o valor do capitalismo contemporâneo.

Quando a informação se tornou valor, e isso começou na década de 1970, a questão se colocou: “Como ganhar dinheiro com a informação?”. Porque a informação não tinha preço. Foi reelaborada e inventada uma coisa que se chama direito de propriedade intelectual, que não é só uma extensão do direito autoral e do direito de invenção da propriedade industrial, é muito mais do que isso. É o que alguns especialistas chamam de “a última enclosure”, o último cercado que começou na Inglaterra com o começo do capitalismo, quando se cercou a terra.

Agora vamos criar um que vai cercar essa unidade mínima que é a diferença que faz a diferença, para garantir a exploração desse valor como unidade mínima, e, ao mesmo tempo, com um alcance global. A lógica das redes, de seu funcionamento e aperfeiçoamento, é colaborativa, e, sendo colaborativa, ela escapa, é da sua própria lógica que as informações circulem. Se não circulam é porque começam a colocar gargalos para cercar e fazer a captura dentro do sistema que permite que isso vire uma propriedade. A esquerda ainda não entendeu o alcance que isso tem como luta política. Se pegarmos, por exemplo, esse sistema anglo-americano de espionagem, porque são americanos, mas os ingleses estão acoplados, como eles chamam as primeiras operações por meio desses sistemas? Vão dar os nomes das primeiras batalhas imperialistas, tanto dos EUA quanto da Inglaterra. Por quê? Porque começou, em outro plano, um outro tipo de imperialismo, e se você não estiver preparado para lutar neste outro plano, como vai perceber o que está em jogo? Existe uma guerra, hoje, no mundo digital, mas é real também porque a dimensão virtual da realidade é tão real quanto a física. Mas a ficha ainda não caiu que esse conflito está lá, e é claro que isso precisa ser entendido, se tornar uma questão política de ponta. Ainda não vi as pessoas se mobilizando para defender o marco regulatório da internet; inclusive, se a gente fizer isso, ou vier a fazer num futuro próximo, vamos ser modelo para outros países que estão com o mesmo problema. Mas precisamos fazer.

Não se faz democracia sem informação, e a maneira de fazer democracia atualmente é expondo, para os ricos, aquilo que eles fazem para o resto da população. Se eles podem fazer tudo e levantar tudo sobre a população, e estão o tempo inteiro se protegendo e protegendo essa informação, sobretudo para destruir aquilo que não deve ser conhecido, os caras que aparecem, de certa maneira, e levantam esse movimento, mostram como essa lógica de captura funciona, estão trabalhando para uma desobstrução de canais, algo absolutamente fundamental. Só pela desobstrução de canais e por uma luta entendendo o que é a propriedade intelectual e o que é fechar a informação para uma apropriação é que você vai poder lutar no futuro, porque não se pode mais voltar para trás. Quando se observa a geração de agora, de 20 anos, eles não conseguem nem lembrar, aliás, nem conseguem saber o que é o mundo sem internet. Nós também não. Algum de nós consegue viver sem internet? Claro que não.

Esse campo, esse fluxo das redes, já se constituiu num campo de batalha para as grandes potências, para o grande capital também, mas muita gente, inclusive da esquerda, ainda não captou isso. A gente pode dizer hoje que as redes e as novas tecnologias são essa nova expressão da luta de classes, só que ninguém enxergou ainda?

Não é que há um determinismo tecnológico, não é essa a questão, se essas máquinas existem é porque as forças produtivas se desenvolveram a ponto de criar essas máquinas. Mas elas colocam a luta política em outro patamar, e esse outro patamar não pode mais deixar de ser levado em conta porque a luta vai se passar lá. Não só lá, mas não é possível entender as ruas hoje, no Brasil e em outros países, sem entender o binômio redes e ruas, com suas especificidades. O modo como o movimento se dá nas redes não é exatamente o mesmo que se dá nas ruas, a relação rede-rua é que tem de ser pensada junto, na sua articulação, e isso é política. Chamo isso de tecnopolítica porque não é mais possível pensar a política sem a tecnologia junto. Estamos vendo agora na política internacional, em que se discute aquilo que se passa nas redes.

Mas ela ainda é excludente…

Claro que é excludente, e se você quiser expandir a democracia política no país, tem de ter banda larga pra todo mundo e com preço acessível, mas tem de ser uma política de Estado. Já devia haver uma diretriz nesse sentido, porque o acesso às comunicações no Brasil é muito caro, não só a banda larga como a telefonia celular é extremamente cara para uma qualidade ruim, a relação qualidade-preço é absurda, e isso revela que existe muito caminho para ser trilhado aqui. É preciso garantir o acesso para a população, mas também trabalhar a educação digital dessas pessoas, e acho que foi isso que o Gil sacou, que podia fazer uma relação entre riqueza cultural e um povo sem acesso. O mais importante é abrir canais novos, e o potencial que a pessoa tem na periferia encontra uma maneira de realizar aquilo, não se torna só um consumidor de uma cultura que vem de cima para baixo. É uma diferença enorme. E até a dependência em relação à mídia velha vai sendo cada vez menor.

Em relação à educação, existe também a questão do trabalho imaterial, que começa a ganhar importância; não sei se é possível isolar, mas como isso modifica a luta dos trabalhadores, dos sindicatos e como entra a questão educacional nesse sentido?

A virada cibernética começou nos anos 1950 nos laboratórios, e nos anos 1970, as máquinas inteligentes começaram a entrar, com os computadores pessoais, em todos os setores, na vida social, na produção, em tudo. Houve uma alteração que é crescente, e cada vez mais profunda, da vida e do trabalho das pessoas, afetou o modo como se trabalhava, instaurando o que muitos chamam, inclusive, de crise da sociedade de trabalho. Porque as máquinas começaram a substituir não só a força física, como era no século XIX, com as máquinas a vapor substituindo quem fazia a força motora, mas passou a fazer todo tipo de trabalho que não é o de invenção, que a máquina não é capaz de criar ela própria. Fora esse trabalho, a substituição do trabalhador pela máquina é cada vez maior, tanto que vemos, desde que isso começou, um paradoxo enorme no qual todos os governos do mundo dizem que precisam aumentar o nível de emprego, e fomentam políticas que substituem os humanos pelas máquinas. Você diz o tempo todo que vai lutar pelo aumento do emprego e, ao mesmo tempo, implanta uma política que elimina o trabalhador e põe uma máquina no lugar dele.

Claro que não é culpa das máquinas, e sim das relações sociais, pois se elas ocupam o lugar dos humanos, eles poderiam ser liberados e preparados para fazer o trabalho que elas não podem fazer. Mas esse desenvolvimento é usado contra o trabalhador, fazendo com que antes ele fizesse uma greve por melhores condições de trabalho e depois da era cibernética, que ele pedisse pelo amor de Deus pra trabalhar. Essa mudança é o que os especialistas chamam de crise da sociedade do trabalho. Hoje a precarização é tal que você luta para manter o seu trabalho. Ao mesmo tempo, essa nova situação cria condições para que outro tipo de trabalho possa acontecer, de caráter colaborativo, escapando dessa lógica.

É necessário que os sindicatos, os trabalhadores discutam isso, quais são as positividades que podem ajudar para não transformar isso em um ludismo, uma briga contra a máquina. Por outro lado, tem de haver uma educação que já integre essa frente de transformação digital porque o mundo se transformou em algo no qual a dimensão digital é incontornável, e é preciso que a população seja educada pra isso. Qual o problema principal depois que você consegue o acesso? É que é necessário ter uma educação para que, dentro daquele fluxo gigantesco de informações, você possa ter parâmetros para discriminar a informação que vai ser boa para você. Não é só o acesso físico, se não tiver critério para se politizar dentro disso, por exemplo, você vai usar a máquina como uma televisão. Usa 1% dela, e no que ela tem de pior.








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terça-feira, 26 de novembro de 2013

A crítica à agroecologia de Zander Navarro e seu “autismo científico”



da página do MST - 18 de novembro de 2013


Em recente artigo publicado no O Estado de S. Paulo, o sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Zander Navarro, escreveu o texto intitulado Fadas, duendes e agricultura, em que deslegitimava o modelo de produção agrícola baseado na agroecologia.

Nele, Navarro critica o recém lançado Plano Nacional de Agroecologia e Agricultura Orgânica, do governo federal, chamando-o de fictício, ridículo, absurdo e algo inacreditável e espantoso.

Em resposta a Zander Navarro, José de Souza Silva, Ph.D. em Sociologia da Ciência e Tecnologia, rebate os argumentos do sociólogo a mercê do agronegócio, a quem considera “autismo científico”.

Para José de Souza Silva, Navarro afirma que o desempenho produtivo da agricultura brasileira produz sustentabilidade, quando o modo capitalista global de produção e consumo replicado pelo agronegócio é a causa profunda da vulnerabilidade do Planeta.

Em contrapartida, ao propor “o cultivo das relações, significados e práticas que geram, sustentam e dão sentido à vida humana e não humana, a agroecologia é um obstáculo à acumulação infinita num planeta finito. Por isso Zander é tão agressivo em sua defesa implícita do agronegocio; a agroecologia é o ‘novo inimigo a combater’”.

Confira o artigo.


A hybris do ‘ponto zero’ e o ‘autismo científico’

Por José de Souza Silva


Poderia ser o “dia da arrogância científica”, mas este foi apropriado por Zander Navarro com Fadas, duendes e agricultura publicado no Estado de São Paulo (30/10). Melhor designá-lo como o dia do ‘autismo científico’.

O autismo é um transtorno global do desenvolvimento que ocorre na infância e institui um mundo particular para alguém que passa a operar dentro de seus limites. O caso desse autor revela um novo tipo de autismo, o ‘autismo científico’. Este é um transtorno no sistema de verdades, sobre o que é e como funciona a realidade, que ocorre entre cientistas durante sua (de)formação profissional.

Cientistas afetados vivem num mundo especial e não operam fora dele. O fenômeno pode ser entendido a partir do significado da hybris (ou hubrys) do ‘ponto zero’. O filósofo colombiano Santiago Castro-Gómez explica que a ideia de ciência moderna supõe um conhecimento que nega seu lugar de enunciação para legitimar sua neutralidade e universalidade. Mas é essa pretensão de autoridade absoluta que constitui a mais radical das posições políticas.

A aspiração de universalidade nega outras formas de conhecer e intervir e transforma o detentor da razão e da verdade no legítimo porta voz de todos. A hybris é a prepotência do ‘ponto zero’ (não-lugar), a arrogância de quem nega seus interesses humanos, posição política e subjetividade para falar em nome de todos.

Zander vive no ‘ponto zero’. Isso o autoriza a definir quem pode ou não enunciar certas verdades, discernir entre o certo e o errado, distinguir o falso do verdadeiro e separar o joio do trigo. Ele vive na Casa de Salomão que Bacon propôs em Nova Atlântida, a ciência organizada que cria as verdades com as quais o Estado governaria a sociedade.

Furioso com o governo federal, por lançar o Plano Nacional de Agroecologia e Agricultura Orgânica sem visitar a Casa de Salomão nem consultar os semideuses habitantes do ‘ponto

zero’, o autor condena o “fictício” conteúdo da proposta, a “ridícula” iniciativa do governo, o “inacreditável” edital do CNPq para fomentar a misteriosa agroecologia, os “espantosos” R$ 98,3 milhões do MDA para ampliar os processos de agroecologia já existentes, os “militantes” que organizaram esse assalto à razão e os “ideólogos” que enquadraram o Planalto em algo tão “absurdo”. Todos estão errados; só ele está certo. A elite científica da Casa de Salomão não autorizou o Plano.

Esquecendo que um cientista atua sob a autoridade do argumento e não sob o argumento da autoridade, o autor perde a razão e faz afirmações autoritárias que o colocam na situação frágil que ele só percebe naqueles que critica.

Condena o Plano por não definir agroecologia, sem definir o que é ciência ao acusar a agroecologia de não ser uma ciência; critica a complexidade dos sistemas agrícolas e defende a uniformidade da produção moderna (mono-cultivos), sem informar que, na natureza, a uniformidade significa vulnerabilidade; afirma que o desempenho produtivo da agricultura brasileira produz sustentabilidade, quando o modo capitalista global de produção e consumo replicado pelo agronegócio é a causa profunda da vulnerabilidade do Planeta.

A tarefa secreta cumprida pelo artigo foi realizada com a maestria de quem domina a arte do “jogo sujo das sombras” que o autor condena em seu artigo. Usa a estratégia do Papa
Leão XIII no texto da Rerum Novarum publicada em 1891. Nela, o Papa faz uma defesa do capitalismo, sem falar seu nome, ao defender a propriedade privada como um “direito natural”. Zander também defende o capitalismo, sem falar nele, ao condenar os agroecologistas como anticapitalistas. Esta é a “agenda oculta” de um guardião do capitalismo.


Propondo o cultivo das relações, significados e práticas que geram, sustentam e dão sentido à vida humana e não humana, a agroecologia é um obstáculo à acumulação infinita num planeta finito. Por isso Zander é tão agressivo em sua defesa implícita do agronegocio; a agroecologia é o “novo inimigo a combater”.

Curiosamente, Zander não informa que hoje o saber científico continua imprescindível, mas é apenas um entre outros saberes relevantes e que, dentro da ciência, não existe apenas uma forma de fazer ciência, a positivista prenhe do gene do autismo científico.

Emergem outras opções paradigmáticas, como o neo-racionalismo, neo-evolucionismo e construtivismo.
O 
paradigma positivista perdeu seu monopólio; sua contribuição continua imprescindível, mas restrita aos fenômenos físicos, químicos e biológicos cuja natureza e dinâmica não dependem da percepção humana.

Vinculada à mudança conceitual no processo de inovação, a agroecologia emerge com o construtivismo percebendo a realidade como uma trama de relações, significados e práticas entre todas as formas e modos de vida. Para Zander, o mundo é um mercado onde a existência é uma luta pela sobrevivência através da competição. Salve-se o mais competitivo!

A Casa de Salomão cultiva uma ciência para a sociedade, mas não da sociedade. A ciência praticada aí, que já foi imperial, colonial e nacional, é agora uma ciência comercial comprometida com a sustentabilidade da acumulação capitalista e não com a sustentabilidade dos modos de vida.


Na Casa de Salomão onde reside Zander, o que não emana do mercado não serve ao mercado e não pode ser traduzido à linguagem do mercado, não existe, não é verdade ou não é relevante. Até quando? A que custo?



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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Organizações pedem intervenção federal em MS para resolver conflitos em Terras Indígenas

Carta Aberta à Presidenta Dilma Rousseff sobre as ameaças e ataques de ruralistas contra povos indígenas: Intervenção federal no Mato Grosso do Sul já
Fonte: ISA (Instituto Socioambiental)



À Presidenta Dilma Rousseff

Desde a morte de Oziel Terena, assassinado por forças policiais durante o cumprimento de uma reintegração de posse na terra indígena Buriti em maio deste ano, uma série de acontecimentos tem colocado em risco a segurança e a vida das comunidades indígenas do Mato Grosso do Sul. Em sua guerra particular contra os povos indígenas, fazendeiros tem se manifestado de forma cada vez mais agressiva no discurso e na ação contra estes povos.

Estimulado por declarações violentas e preconceituosas de fazendeiros e seus representantes no Mato Grosso do Sul, o conflito chega a um estado de recrudescimento que exige de nós, organizações indígenas e indigenistas, vir a público mais uma vez denunciar a situação urgente e gravíssima dos povos originários do estado, e exigir uma intervenção federal imediata no Mato Grosso do Sul, de modo a evitar mais uma tragédia anunciada no Brasil.

Em Campo Grande, durante a invasão da sede da Fundação Nacional do Índio por 150 produtores rurais, no dia 19 de novembro, uma fazendeira gritou, dirigindo-se a indígenas que estavam no local: "o dia 30 está chegando (...), e rogo uma praga a vocês: morram. Morram todos!". Foi aplaudida pelos manifestantes.

Dia 30 de novembro foi o prazo final estabelecido pelos produtores rurais do Mato Grosso do Sul para que o governo solucione os conflitos fundiários no estado. No entanto, prevendo que o Estado não consiga apresentar uma proposta que efetivamente dê cabo do problema - e que favoreça o segmento do agronegócio - os fazendeiros, através de suas associações, tem pública e repetidamente dado declarações como esta.

"O prazo para uma solução final é 30 de novembro. Depois disso, como já é tragédia anunciada, os fazendeiros irão partir para o confronto legítimo para defender seu direito de propriedade. E vai haver derramamento de sangue, infelizmente", declarou o vice-presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul), Jonatan Pereira Barbosa, na tribuna da Comissão de Reforma Agrária do Senado Federal, no dia primeiro de novembro, conforme publicado no sítio eletrônico da entidade (veja aqui).

O presidente da Acrissul, Francisco Maia, no último dia 8, em reunião com 50 produtores rurais do estado, disse: “A Constituição garante que é direito do cidadão defender seu patrimônio, sua vida. Guarda, segurança, custa dinheiro. Para entrarmos numa batalha precisamos de recurso. Imagine se precisamos da força de 300 homens, precisamos de recurso para mobilização” (saiba mais).

Em nova reunião, no dia 12 de novembro, o vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), Nilton Pickler, também veio à público corroborar a posição da Acrissul: “Estamos em uma terra sem lei, onde invadir propriedade não é mais crime, alguma reação precisa ser feita”, afirmou.

As entidades representativas dos produtores rurais do estado estão organizando, para o dia 7 de dezembro, em Campo Grande, um leilão de animais, commodities, máquinas e produtos doados pelos próprios pecuaristas do estado, para arrecadar recursos para ações contra os indígenas. Deram ao evento o nome de "Leilão da Resistência". Declararam, no último dia 19, que já receberam 500 cabeças de gado como doação, equivalentes a, no mínimo, 500 mil reais.

O documento final da Quarta Assembleia do Povo Terena, que contou com a participação de mais de 300 lideranças Indígenas de todo o estado, representando os mais de 70 mil indígenas que lá vivem, declarava: "a tragédia está anunciada em Mato Grosso do Sul (...). É pública e notória a ameaça concreta intentada contra os povos indígenas pelos ruralistas deste estado". Para os indígenas, está claro: os “leilões da resistência" anunciados pelos produtores rurais "tem por objetivo financiar milícias armadas".

Em carta, os indígenas criticaram o Estado pelo abandono das negociações, no sentido de encontrar saídas para a questão indígena. "O governo federal instalou (...) uma mesa de diálogo na tentativa de resolver a demarcação de nossos territórios. No entanto, após vários prazos estipulados pelo próprio ministro [da Justiça], não há nada de concreto a ser apresentado aos povos indígenas".

As comunidades Terena, Guarani-Kaiowá, Guarani Ñandeva, Kinikinau e Kadiwéu em luta pela garantia de seus territórios tradicionais, tem relatado e denunciado à Polícia Federal, à Funai e ao MPF um sem número de casos de ataques a tiros, invasões, intimidações e ameaças de morte que os indígenas vem sofrendo no último período. Apesar disso, até o momento, nenhuma segurança permanente está sendo oferecida a estes povos.

Os indígenas conhecem bem o trabalho da segurança privada que os fazendeiros pretendem ampliar na região. Em contexto do conflito envolvendo indígenas e fazendeiros, em novembro de 2011, a empresa de segurança privada Gaspem, que prestava - e ainda presta - serviços a proprietários de terras que incidem sobre território tradicional indígena, foi acusada de envolvimento na morte do rezador Guarani-Kaiowá Nízio Gomes, no tekoha Guaiviry, em Aral Moreira. Na denúncia, o Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS) classificou as atividades da empresa como de uma “milícia privada”, exigindo a suspensão das atividades da companhia. Em função do caso, sete pessoas estão presas, conforme relatou o MPF.

Jornais e televisões locais também tem associado o termo "milícias armadas" ao discurso dos ruralistas sobre o leilão e sobre as ameaças do dia 30 de novembro. Agências de notícias internacionais categorizaram o caso como "conflito sangrento (...) com características de guerra territorial".

É público e notória que, no Mato Grosso do Sul, os fazendeiros estão organizando força paramilitar para atentar contra a vida de coletividades e contra o Estado de direito no Brasil.

A "resistência" dos latifundiários é contra a demarcação das terras indígenas. É contra a realização de laudos e perícias pela Funai. É contra a organização política dos indígenas, que avançam na retomada de seus territórios tradicionais, frente à morosidade do Estado e da Justiça, de toda a violência que vem sofrendo, das mãos das forças policiais estaduais e federais, e das seguranças privadas “legais” ou ilegais que atuam na região. A dita "resistência" é, a rigor, contra a vida destas pessoas.

Em função desta conjuntura, extensão de um violento processo histórico de espoliação, confinamento e extermínio dos povos indígenas desta região, as organizações signatárias vem a público exigir da presidente Dilma uma intervenção federal imediata no Estado do Mato Grosso do Sul. O poder público pode e deve evitar esta “tragédia anunciada”, repetição sistemática do genocídio contra os povos indígenas. E isto precisa ser feito agora. O reconhecimento e a demarcação das terras indígenas é a verdadeira solução para a situação que está posta no Mato Grosso do Sul.

Brasília, 21 de novembro de 2013.

Conselho Indigenista Missionário – Cimi
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB
Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul – ArpinSul
Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo – Apoinme
Aty Guasu Guarani Kaiowá
Conselho de Caciques Terena
Conselho Indígena de Roraima – CIR
Instituto Kabu - Nejamrô Kayapó
Associação dos Índios Tupinambá da Serra do Padeiro – AITSP
CCPIO AP. Galibi Marworno – Paulo R. Silva
Vídeo nas Aldeias – Vincent Carelli
Operação Amazônia Nativa – Opan
Instituto de Pesquisas e Formação Indígena – Iepé
Instituto Socioambiental – ISA
Associação Terra Indígena Xingu – ATIX
Instituto Indígena para Propriedade Intelectual – Inbrapi
Hutukara Associação Yanomami (HAY) – Davi Kopenawa Yanomami e Dário Vitória Kopenawa Yanomami









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